Reflexões e Provocações - Blog do Professor Henrique Branco

Professor de geografia em Belém do Pará. Especialista em geografia da Amazônia: Sociedade e gestão dos recursos naturais. Militante socialista, em busca de um mundo mais justo e menos desigual. Email para contato: henriquembranco@gmail.com

31

de
agosto

Mudança de endereço

A vida é cheia de ciclos. Alguns terminam rápidos, outros demoram mais, mas terminam também. Da mesma forma este blog que durou quatros anos, encerra suas atividades. Foram 485 posts (incluindo este, o último), centenas de comentários dos leitores, muitos concordando, outros indo de encontro ao texto, mas todos respeitosos e de grande importância ao crescimento deste que vos escreve.

Criei este blog de forma meio descompromissada, sem grandes pretensões, mas pela simples vontade em escrever e descarregar minhas reflexões e provocações no blog, compartilhando-as com os meus leitores, muitos destes, no início, restritos aos amigos mais próximos, mas logo o blog iria alcançar vôos maiores.

Nesses anos foram mais de 20 mil acessos, cinco mil por primavera… Mais de 400 por mês, média de 13 por dia. A partir de hoje finalizo suas atividades e atualizações. Irei mantê-lo no ar apenas para consulta e reconhecimento de meus trabalhos. Migro minhas reflexões e provocações para um novo endereço. Criei um blogspot, um blog da Google, o melhor da categoria.

Meu objetivo, a partir de agora, é profissionalizar minhas ações, pelas ferramentas que tenho à disposição, irei exercer no novo endereço, com plenitude minhas incursões dialéticas. Aviso aos leitores que a proposta continua a mesma: discutir política, economia, educação, Amazônia e assuntos relevantes e de interesse geral.

Convido a todos a conhecer e continuar acompanhando minhas reflexões e provocações em novo blog, que mudará na embalagem (muito mais apresentável), mas a essência continua sendo o mesmo. Então fica combinado, nos encontramos por lá. 

Clique no link abaixo para acessar o novo blog do professor Henrique Branco.

 

 

http://www.henriquembranco.blogspot.com

 

 

 

24

de
agosto

Estamos tentando recuperar nossa própria voz - entrevista de Eduardo Galeano a Caros Amigos

Por Fania Rodrigues 

Um dos mais respeitados escritores e intelectuais da América Latina, Eduardo Hughes Galeano recebeu a Caros Amigos numa tarde de segunda-feira, no Café Brasilero, em Montevidéu. Aos 69 anos fala, em fluente português, sobre sua literatura, o amor pelos cafés e, claro, sobre política. Uruguaio de nascimento (1940), latino-americano

por devoção e cidadão do mundo por paixão, quando criança, sonhava em ser jogador de futebol. “Era uma maravilha jogando, mas só de noite, enquanto dormia”. Melhor assim. Os campos de futebol não perderam nada, porém a literatura ganhou um verdadeiro artesão das palavras. Suas obras combinam elementos da literatura, sensibilidade e observação jornalística, que estão sempre em função de suas paixões. Autor de mais de trinta livros, dezenas de crônicas e artigos, Galeano também é um exímio defensor do socialismo, dos direitos e da dignidade humana. Entre seus livros, pode se destacar As veias abertas da América Latina, a trilogia Memória doFogo, Livro dos Abraços e o último, Espelhos - uma história quase universal, lançado em 2008, em que o autor reescreve, a partir de um outro ponto de vista, episódios que a história oficial camuflou. Galeano “remexe no lixão da história mundial” para dar voz aos “náufragos e humilhados”.

 Caros Amigos - Você nasceu em Montevidéu? Gostaria que falasse um pouco da sua infância?

Eduardo Galeano - Sim, nasci em Montevidéu. Minha infância? Eu nem lembro, já faz tanto tempo… Mas acho que foi bastante livre. Eu morava em um bairro quase no limite da Montevidéu, onde havia grandes edifícios. Então tinha espaço verde. Sinto pena das coitadas das criancinhas que vejo agora, prisioneiras na varanda de casa. Meninos ricos são tratados como se fossem dinheiro, meninos pobres são tratados como se fossem lixo. Muitos, pobres e ricos, viram prisioneiros, atados aos computadores, à televisão ou a alguma outra máquina. Mas eu tive uma infância muito livre. Fiz a escola primária, secundária, depois comecei a trabalhar por minha conta. Então, com 15 anos, já era completamente livre. 

Em que trabalhou?

Fiz de tudo o que você possa imaginar. Fui desenhista (adoro desenhar até hoje), taquígrafo, mensageiro, funcionário de banco, trabalhei em agência de publicidade, cobrador… Fiz milhares de coisas, mas, sobretudo, comecei a aprender o ofício de contar história. Eu era um cuenta cuentos (conta contos). E aprendi a fazer isso nos cafés, como esse onde a gente está agora falando, que leva o honroso nome de Brasilero.

 O mais tradicional dos cafés uruguaios se chama Brasilero!

E esse é último sobrevivente, o último dos moicanos dos cafés nos quais eu fui formado. Minha universidade foram os cafés de Montevidéu, foi aqui que aprendi a arte de narrar, a arte de contar histórias. 

Conversando com as pessoas?

Escutando. Conversando sim, mas aprendi muito mais escutando. Desde muito menino aprendi que, por alguma razão, nascemos com dois ouvidos e uma única boca. Mas esses cafés típicos de Montevidéu pertenciam a uma época que não existem mais. Pertenciam a um tempo no qual havia tempo para perder o tempo. 

Como foi sair do Uruguai, na época da ditadura (1973-1984)?

Quando a ditadura se instalou, eu corri para a Argentina, em 1973. Lá fundei uma revista cultural chamada Crisis. Depois fui obrigado a voar de novo. Não podia voltar para o Uruguai, porque não queria ficar preso, e fui obrigado a sair da Argentina porque não queria ser morto. A morte é uma coisa muito chata. Então fiquei na Argentina até o final de 1976, quando se instala a Ditadura argentina. Aí fui para a Espanha, onde fiquei até o final de 1985. Depois disso voltei para o Uruguai. No começo, minha situação em Barcelona foi muito complicada. Eu não tinha documentos, pois a Ditadura uruguaia se recusava a fornecer. O que possuía era um documento de salvo conduto das Nações Unidas, que não servia para muita coisa. Eu tinha que ir todo mês à polícia renovar o meu visto de permanência e passava o dia inteiro preenchendo formulários de perguntas. Então, um dia, onde dizia profissão, coloquei escritor, entre aspas, de formulários. Mas ninguém percebeu. A polícia achou normal ser escritor de formulários! 

Havia duas listas das ditaduras do Cone Sul. Uma, com os nomes das pessoas que estavam marcadas para morrer e outra para a extradição. Em qual você estava?

Nas duas. 

Na época da ditadura, muitas pessoas, assim como você, ficaram sem documentos, não podiam sair do país e foram mortas a tiro ou envenenadas…

Eu tive sorte. Não me lembro de ter sido envenenado, nem mesmo pelos críticos literários. Claro que sofri muitas ameaças, mas não vou fazer aqui uma apologia do mártir, do herói da revolução. Mas claro que a vida não era fácil, sobretudo por que a situação dessa revista que fundei na Argentina era difícil, pois chegava muito além das fronteiras tradicionais das revistas culturais. Nós vendíamos entre 30 e 35 mil exemplares. Isso, para uma revista cultural, era uma prova de resistência. Nós pensávamos em fazer era um resgate das mil e uma formas de expressão da sociedade. Não apenas dos profissionais da cultura, mas também das cartas dos presos, da cultura contada pelos operários das fábricas, que raramente viam a luz o sol. Esse tipo de coisa que para nós também era cultura. 

O livro As Veias abertas da América Latina foi escrito na década de 1970. Hoje, é possível escrever um novo Veias Abertas?

Para mim esse livro foi um porto de partida, não de chegada. Foi o começo de algo, de muitos anos de vida literária e jornalística tentando redescobrir a realidade, tentando ver o não visto e contar o não contado. Depois de Veias escrevi muitos livros que foram continuações, de um certo modo, e uma tentativa de cavar, cada vez mais profundamente, a realidade. Isso com o objeto de ampliar um pouco as ideias, porque Veias é um livro limitado à economia política latino-americana. Os livros seguintes têm que ser lidos com a vida toda, nas suas múltiplas expressões, sem dar muita bola nem ao mapa, nem ao tempo. Se eu fico apaixonado por uma história, me

ponho a contar histórias de qualquer lugar do mundo e de qualquer tempo. Conto a história da história, que podem ter acontecido há 2 mil anos e tento escrever de tal modo que aconteçam de novo, na hora em que são contadas. Aí está o verdadeiro ofício de contar, que aprendi nos cafés de Montevidéu, que inclusive permite a você escutar o som das patas dos cavalos, sentir o cheiro da chuva… 

Pode-se dizer que hoje existe uma demanda por governos de esquerda na América Latina? Em sua opinião, esses governos têm contribuído para diminuir a pobreza e a desigualdade social nesses países?

O que existe é um panorama muito complexo e diverso de realidades diferentes. Também vemos respostas sociais e políticas diversas. Isso é o que nossa região do mundo tem de melhor: sua diversidade. Esse encontro de cores, de dores tão diferentes, é a nossa riqueza maior. Os novos movimentos, como esses, que estão brotando por toda parte, que tentam oferecer uma resposta diferente às desigualdades sociais, contra os maus costumes da humilhação e o fatalismo tradicional, também são respostas diversas porque expressam realidades diferentes. Não se pode generalizar. O que existe sim é uma energia de mudança. Uma energia popular que gera diversas realidades, não só política, mas realidades de todo tipo, tentando encontrar respostas, depois de vários séculos de experiências não muito brilhantes em matéria de independência. Agora estamos comemorando, em quase todos os países, o bicentenário de uma independência que ainda é uma tarefa por fazer. 

O que falta para a América Latina ser completamente independente?

Romper com o velho hábito da obediência. Em vez de obedecer à história, inventá-la. Ser capaz de imaginar o futuro e não simplesmente aceitá-lo. Para isso é preciso revoltar-se contra a horrenda herança imperial, romper com essa cultura de impotência

que diz que você é incapaz de fazer, por isso tem que comprar feito, que diz que você é incapaz de mudar, que aquele que nasceu, como nasceu vai morrer. Porque dessa forma não temos nenhuma possibilidade de inventar a vida. A cultura da impotência te ensina

a não vencer com sua própria cabeça, a não caminhar com suas próprias pernas e a não sentir com seu próprio coração. Eu penso que é imprescindível vencer isso para poder gerar uma nova realidade. 

A América Latina copiou um modelo de desenvolvimento que não foi feito para ela. É possível inventar um modelo próprio de desenvolvimento?

Não vou entrar em detalhes porque se fosse falar da quantidade de cópias erradas seria uma lista infinita. O desafio é pensar no que queremos ser: originais ou cópias? Uma voz ou eco? Agora estamos tentando recuperar nossa própria voz, em diferentes países, de diversas maneiras. 

A implantação das bases dos Estados Unidos na Colômbia fere a dignidade do povo latinoamericano e compromete a independência e a liberdade da América do Sul?

Sim. É a continuação de uma tradição humilhante. Também há o perigo da intervenção direta dos Estados Unidos nos países latino-americanos. Meu mestre, Ambroce Bierce, um escritor norte-americano maravilhoso, quando se iniciou a expansão imperial dos Estados Unidos, no século 19, dizia que a guerra é um presente divino enviada por Deus para ensinar geografia. Porque assim eles (estadunidenses) Aprendiam geografia. E é verdade. Os EUA têm uma tradição de invadir países sem saber onde estão localizados e como são esses países. Tenho até a suspeita de que (George W.) Bush achasse que as

Escrituras tinham sido inventadas no Texas e não no Iraque, país que ele exterminou. Então, esse perigo militar latente é muito concreto. Atualmente os EUA possuem 850 bases militares em quarenta países. A metade do gasto militar mundial corresponde aos gastos de guerras dos EUA. Esse é um país em que o orçamento militar se chama orçamento de defesa por motivos, para mim, misteriosos e inexplicáveis. Porque a última invasão sofrida pelos EUA foi em 1812 e já faz quase dois séculos. O ministério se chama de defesa, mas é de guerra, mas como que se chama de defesa? O que tem a ver com a defesa? A mesma coisa se aplica às bases na Colômbia, que também são “defensivas”. Todas as guerras dizem ser “defensivas”. Nenhuma guerra tem a honestidade de dizer “eu mato para roubar”. Nenhuma, na história da humanidade. Hitler invadiu a Polônia porque, segundo ele, a Polônia iria invadir a Alemanha. Os pretextos invocados para a instalação dessa base dos EUA na Colômbia não são só ofensivas contra a dignidade nacional dos nossos países, como também ofensivas contra a inteligência humana. Por que dizer que serão colocadas lá para combater o tráfico de drogas e o terrorismo? Tráfico de drogas, muito bem… 80% da heroína que se consome no mundo inteiro vem do Afeganistão. 80%! Afeganistão é um país ocupado pelos EUA. Segundo a legislação internacional, os países ocupantes têm a responsabilidade sobre o que acontece nos países ocupados. Se os EUA têm interesse de verdade de lutar contra o narcotráfico, têm que começar pela própria casa, não pela Colômbia e sim pelo Afeganistão, que faz parte da sua estrutura de poder, e que é o grande abastecedor de heroína, a pior das drogas. O outro pretexto invocado é o terrorismo. Mas não é sério. Não é sério, por favor. A grande fábrica do terrorismo é essa potência mundial que invade países, gera desespero, ódio, angústia. Sabe quem esteve sessenta anos na lista oficial dos terroristas dos EUA? Nelson Mandela, Prêmio Nobel, presidente da África do Sul. Cada vez que viajava aos EUA, ele precisa de um visto especial do presidente dos Estados Unidos, porque era considerado um terrorista perigoso durante sessenta anos. Até 2008. É desse terrorismo que estão falando? Imagina se eu fosse incorporado agora na lista dos terroristas dos EUA e tivesse que esperar sessenta anos para ser tirado. Acho que daqui há sessenta anos vou estar um poquitito mortito

Fania Rodrigues é jornalista

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22

de
agosto

As eleições de 2010 no Pará. Parte XIII

Com a proximidade da eleição de outubro algumas posições e cenários vão se acomodando naturalmente. No plano federal, pelo andar da carruagem, a candidata petista, Dilma Rousseff poderá vencer ainda em primeiro turno José Serra. A última pesquisa aponta a petista 17 pontos à frente do tucano.

Na esfera estadual há um dado interessante, ou melhor, ausência deles, pois não há pesquisa sobre o governo do estado do Pará. Algumas pesquisas foram realizadas, mas restritas aos partidos que as encomendou para estratégias de campanha. Oficialmente não há pesquisa. Por quê?

Parece que o resultado não agrada nenhuma das legendas que estão com reais chances de conquistar ou se manter no Palácio dos Despachos, leia-se: tucanos e petistas. O que sabe é que o índice de rejeição a governadora Ana Júlia ainda é alto, chegou na RMB perto dos 70%, deixando os petistas de cabelo em pé. Hoje, através de ações eleitoreiras esse índice baixou, mas ainda está acima do esperado.

Não há consenso com relação a quem está na frente. Algumas pesquisas apontam a liderança de Jatene, em outras Ana Júlia lidera. A supremacia petista é um fator importante para a vitória. Ana Júlia conta com 14 partidos em sua coligação. Nos últimos dias, mais de 50 prefeitos confirmaram apoio a governadora, muito deles de partidos que disputam com o PT a eleição.

Do lado tucano há um cenário de desilusão e incerteza quanto ao resultado da campanha. Jatene não tem recursos para uma disputa para governador, que requer investimentos de milhões de reais. Sem apoio da máquina estadual e federal, resta ao ex-governador tucano apoio de um pingado de prefeitos de sua legenda no interior, além de doações de empresas, interessadas na sua volta ao poder. A mesma limitação orçamentária encontra o candidato do PMDB, Domingos Juvenil, que sem dinheiro mantém seu raio de ação concentrado na sua região (no eixo da rodovia transamazônica, especialmente na cidade de Altamira, onde foi prefeito) e RMB.

Ana Júlia por outro lado, detém a máquina estadual, apoio de Brasília e uma política de aliança que garante boa inserção de tempo de TV e nos interiores controlados pelos partidos que a apóiam. A candidata petista está no segundo turno, mas o PT - assim como no cenário federal - quer liquidar a fatura no primeiro. Tarefa não tão fácil, pelo alto índice que rejeição ao governo de Ana Júlia.

Em qualquer eleição é fundamental ter recursos, um grande orçamento para as despesas, principalmente de deslocamento. No estado do Pará essa questão é mais grave e requer esforço dobrado. Primeiramente pela extensão territorial. Segundo pelos gargalhos estruturais do estado, tornando a campanha muito mais favorável aos que tem recursos e podem deslocar-se por esse país chamado Pará.

18

de
agosto

Tudo por um segundo turno, direto do blog da Edilza Fontes

“Serra agora está como aquele lutador de boxe que leva uma saraivada de golpes no final do primeiro round. Toda a sua energia concentra-se em ficar de pé”

A última rodada da pesquisa Datafolha foi um balde de água gelada, siberiana, para o comando da campanha do candidato do PSDB, José Serra, à Presidência da República. Os números do Datafolha até então, sempre mais favoráveis a Serra, serviam de esteio para evitar debandadas e corpo mole nos estados. Essa é uma característica das eleições casadas. Elas garantem apoio ao candidato à Presidência enquanto isso for algo bom para as eleições nos estados. Na hora em que pedir votos para o candidato à Presidência atrapalha conseguir votos para governador, senador, deputado, o candidato à Presidência vai desaparecendo da campanha estadual.

Serra não apenas perdeu a liderança para Dilma Rousseff, do PT. Ela já apareceu oito pontos percentuais à frente. Fica mais do que confirmado um favoritismo que os outros institutos de pesquisa já apontavam. Feita a leitura da pesquisa, os estrategistas da campanha de Serra agora não pensam mais em como fazer para chegar à frente da adversária petista no primeiro turno. A tarefa agora passou a ser conseguir de todas as formas que haja segundo turno.

“A Dilma no segundo turno, derrete”, apostou o líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen (SC), numa conversa com este colunista na última sexta-feira (13). Descontado o natural discurso engajado em favor de Serra, a conversa com Paulo Bornhausen apontou para o cenário que se encaminha para o candidato do PSDB, nessa fase que se inicia, de campanha de fato, com o início das propagandas de rádio e TV.

A avaliação que os aliados de Serra fazem é que a possibilidade de crescimento de Dilma se esgota terminado o primeiro turno. Até pelo formato escolhido pelo próprio presidente Lula, que não permitiu que Ciro Gomes (CE), do PSB, se apresentasse como um segundo candidato da situação, é no voto em Dilma que se concentra toda manifestação de homenagem, apreço e apoio ao atual governo. Quem quer a continuidade do governo Lula, vota em Dilma. Quem quer que mude, vota nos demais, variando aí a intensidade e o formato da mudança.

Assim, acreditam os estrategistas da campanha de Serra que Dilma chegará ao seu limite no primeiro turno. E que a grande maioria dos votos nos demais candidatos irá para Serra. “Lula, no seu melhor momento, não ganhou no primeiro turno”, diz Paulo Bornhausen, referindo-se à eleição de 2006, em que o presidente foi ao segundo turno com Geraldo Alckmin, do PSDB. “Lula, de fato, furou o espaço do voto cativo que sempre há no PT. Dilma não vai furar”, confia o líder do DEM.

A essa altura, parece haver entre os aliados de Serra um tanto de cálculo racional e um tanto de torcida. Em primeiro lugar, claro está que Serra tem que fazer tudo para levar a eleição ao segundo turno. Se levar, o primeiro impacto disso será mais favorável a ele, que terá conseguido conter a arrancada de Dilma. Mas é difícil prever como se comportará de fato o eleitor que não escolheu Dilma nem Serra no primeiro turno.

O PV de Marina esteve no governo Lula. A não ser que Marina declare apoio a Serra no segundo turno - o que não parece provável -, o grupo realmente mais ligado a ela parece ter mais afinidade ideológica com o PT. Mesmo com todas as restrições, numa opção apenas entre ela e Serra, podem ir para Dilma. Os empresários com preocupações ambientais, que se aliaram à candidatura de Marina por causa de seu vice, o dono da Natura, Guilherme Leal, podem ir para Serra. A confiar no que dizem as pesquisas, os demais candidatos têm presença tão pequena no total de votos que não parecem ter qualquer capacidade de fazer pender a balança. De qualquer modo, não parece provável que Serra tivesse os votos dos eleitores dos candidatos radicais de esquerda. Poderia conseguir os votinhos dos dois conservadores: Eymael, do PSDC, e Levy Fidélix, do PRTB.

Enfim, o quadro atual aponta para um favoritismo de Dilma no primeiro turno que somente um acidente imprevisto poderia reverter. A chance de Serra fica para um segundo turno. Que seria uma espécie de freio de arrumação, uma tomada de fôlego para a nova tentativa de virar a eleição. Serra agora está como aquele lutador de boxe que leva uma saraivada de golpes no final do primeiro round. Toda a sua energia concentra-se em ficar de pé. Para ver se uma esponja de água gelada e algum curativo nas feridas durante o intervalo façam com que ele consiga pensar em alguma coisa diferente no segundo round.

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15

de
agosto

Pesquisa DataFolha: o desespero tucano

Na última semana o instituto DataFolha divulgou pesquisa das intenções de votos para Presidente da República, consolidando a liderança de Dilma Rousseff, candidata do PT, oito pontos à frente de José Serra, do PSDB.

Todos que acompanham pesquisas e eleições, sabem que o DataFolha tem histórico de apoio e favorecimento a alguns candidatos, especialmente aos tucanos. Em outras pesquisas lançadas por outros institutos, Dilma já consolidava sua liderança na intenção de voto. Chegou abrir vantagem de 10 pontos em pesquisa lançada recentemente. Na mesma ocasião, o mesmo DataFolha colocava a candidata petista três pontos à frente de Serra, ambos empatados pela margem de erro da pesquisa.

O cenário era claro: Dilma liderava em outros institutos de pesquisa, menos no DataFolha. O referido instituto mantinha artificialmente inflados os números de Serra, haja vista, que não correspondia com a realidade ou com a intenção do eleitorado em votar no tucano.

Na última pesquisa do DataFolha, Dilma aparece com 41% das intenções de votos, contra 33% de Serra. Diferença de oito pontos. Demorou mas não tinha mais como o instituto manter a diferença empatada na margem de erro. Não existe margem de erro tão elástica como da diferença entre os dois candidatos. Seria um absurdo.

O que mais impactou nos números da pesquisa além da confortável diferença foi o espaço que a candidata petista precisa conquistar para vencer ainda no primeiro turno as eleições. O que separa Dilma da vitória são três pontos, no máximo seis pela margem de erro.  

Há meses atrás os tucanos lutavam para manter a liderança nas pesquisas até o começo dos debates e o horário eleitoral na TV, agora lutam para levar a disputa para o segundo turno. O fato é que a linha de crescimento de Serra estagnou, chegou ao seu limite, seu teto. Não avançará além dos 35%.

O que poderá manter a disputa para o segundo turno será o crescimento de Marina Silva nas pesquisas. Ai está o problema. Marina dificilmente passará dos 10%. A candidata parece ter chegado ao seu limite, assim como Serra.

O candidato do Psol, Plínio de Arruda, apesar do sucesso de sua participação no debate na Band e na internet, dificilmente conseguirá influência na disputa. O objetivo de Plínio não é ganhar, mas sim passar sua mensagem e dar viabilidade ao seu partido.

O PT deve trabalhar para liquidar a fatura ainda no primeiro, pois há reais chances que isso venha acontecer, evitando surpresas desagradáveis no segundo.

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12

de
agosto

“Ninguém vai destruir minha relação com a sociedade” - Parte 2

ISTOÉ - O sr. espera que sua ideia de frente ampla mude o modo de fazer política no País?
Lula - Eu quero ter esse papel aqui dentro. Também tenho discutido muito em nível internacional. Muita gente já conversou comigo para que eu tivesse um papel na Internacional Socialista. Mas acho que a Internacional Socialista tem a cara da Europa, não tem a cara da América Latina. Eu seria um estranho no ninho. Mas eu quero também contribuir para que a gente discuta um pouco uma organização política aqui na América Latina.

ISTOÉ - Nos mesmos termos?
Lula - Eu não sei ainda. Mudou a cara política da América Latina, mas os partidos continuam os mesmos. As forças são as mesmas. A gente não evoluiu na organização internacional. O que é o partido do Chávez? Ou os partidos políticos na Argentina? Lá tem um monte de partidos políticos, mas todos são peronistas. O Uruguai tem o partido mais organizadinho, com a Frente Ampla. No Paraguai, o presidente foi eleito por fora dos dois maiores partidos. É juntar essa coisa toda e começar a elaborar possivelmente uma nova doutrina da criação de uma instituição política que pense em uniformizar determinados princípios na América Latina. Sem o dogmatismo do manifesto, que não venha com aquele negócio da terceira, quarta internacional, não quero mais saber disso.

ISTOÉ - Há um temor no meio empresarial de um futuro governo da Dilma ser mais estatizante que o seu.
Lula - Não há essa hipótese. Eu conheço bem a Dilma e sei o que ela pensa. Obviamente que nós não queremos ser estatizantes, mas também não vamos carregar a pecha que nos imputaram nos anos 80, quando se dizia que o Estado não valia nada e que o mercado era o Deus todo-poderoso. Essa crise americana mostrou que o mercado é frágil, é corrupto e que quem tinha o Estado mais forte salvou-se primeiro. No caso do Brasil, se não tivéssemos o Banco do Brasil, como é que a gente iria comprar a carteira de financiamento de carro usado do Votorantim? Eu cheguei para o Banco do Brasil e para o companheiro Guido Mantega (ministro da Fazenda) e disse: “Companheiros, nós não podemos deixar quebrar as finanças de carro usado, porque se não vender carro usado não tem compra de carro novo.” Eu perguntei para o Dida (presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine): “Como o Banco do Brasil está? Pode financiar carro usado?” “Ah! Nós não temos expertise, presidente.” Eu perguntei, o que a gente faz então? “A gente tem que formar.” Que formar, o quê! Não temos tempo de formar, a crise está aqui, batendo à porta. Vamos comprar de quem tem. O Votorantim tem, quer vender? Então compramos 50% da expertise do Votorantim. Acabou o problema. O Serra queria vender a Caixa Econômica Estadual. Começaram a falar para mim: “Você não pode comprar, porque o Serra é candidato, é adversário, o Serra vai juntar muito dinheiro para a campanha.” Eu disse: vocês são doidos! Acham que, por causa da campanha do Serra, vou deixar de comprar um banco que permitirá que o Banco do Brasil volte a ser o maior do País? Quem vai fiscalizar o dinheiro do Serra é a Justiça Eleitoral, não serei eu. Nós vamos comprar. E compramos.

ISTOÉ - O sr. considera que estes foram dois grandes momentos no enfrentamento da crise?
Lula
- Quando a gente chega aqui é menos teoria e mais prática. Quando a gente está na oposição, está discutindo. Você fica numa mesa de bar conversando e diz: eu penso isso, eu penso aquilo. Quando senta naquela cadeira de presidente, você não acha, você não pensa, você não acredita. Você faz ou não faz. E tem que tomar decisão na hora. Não tem que se preocupar com a repercussão. Eu, de vez em quando, adoto uma máxima do Chico Buarque: tem que ouvir o ministério do que vai dar merda. Aprendi antes de tomar a decisão a chamar outras pessoas para perguntar: isso aqui vai dar merda ou não? Governar é uma coisa engraçada. Uma vez o Gilberto Gil propôs a criação da Ancinave. Era uma proposta. De repente a gente estava tomando porrada de todos os lados. Eu reuni numa mesa todos os ministros envolvidos naquilo: Justiça, Fazenda, Indústria e Comércio, Cultura, Secom e mais uns três ou quatro. Disse que nós estávamos apanhando muito na imprensa e que eu precisava saber se todos nós estávamos de acordo com a proposta na mesa. Foi fantástico. Nenhum ministro concordava com a proposta. Porque era uma proposta para debate e surgiu como se fosse uma proposta acabada do governo. Então eu falei: “Alguém tem que comunicar à imprensa que está retirada a proposta. Se ninguém defende a proposta, por que vai continuar?” No governo ou você toma a decisão rapidamente ou é engolido rapidamente.

ISTOÉ - O Brasil, apesar dos preconceitos machistas, está pronto para ser presidido por uma mulher?
Lula - O preconceito é uma coisa cultural muito forte no mundo e no Brasil. Mas a ascensão das mulheres nos últimos 20 anos é uma coisa extraordinária. Fui num debate com empresários no Paraná na sexta-feira passada e eu dizia a eles: o que leva um homem a ter preconceito contra um ser humano que o carregou na barriga nove meses? Que o limpou enquanto ele não sabia se limpar? Que o ensinou a comer quando ele não sabia comer? Que formou o seu caráter e que continuou cuidando dele até ele se casar? E só parou quando a sogra começou a se invocar? Qual é a razão que a gente tem para não acreditar num ser que fez a gente? Vamos ser francos: o nosso caráter é o da nossa mãe. A gente pode adorar o pai da gente, mas na hora, que a gente caiu quem estava do nosso lado era nossa mãe. Na hora que a gente tinha dor de barriga quem estava conosco era nossa mãe. Na hora que a gente acordava de noite chorando quem estava do nosso lado era nossa mãe. Quem levantava para trocar nossa fralda de noite era nossa mãe. Quem colocava mamadeira na nossa boca de manhã era nossa mãe. Quem dava o peito para a gente machucar era nossa mãe. Por que nós temos preconceito contra essa figura tão nobre? Eu tenho dito para a Dilma que ela tem que dizer: “Eu não vou governar o Brasil. Eu vou cuidar do povo brasileiro.” Porque a palavra correta é cuidar. E cuidar da parte mais pobre. Tem rico que vem aqui, te pede um bilhão de reais e sai falando mal de você. O pobre te pede dez reais e fica agradecido pelo resto da vida. Então, nós temos que cuidar do povo. Esse país não pode continuar com o povo esquecido. Eu acho que nós vamos vencer o preconceito.

ISTOÉ - Acha que foram superados preconceitos que havia contra o sr.?
Lula - Eu fui vítima de muito preconceito. Nas primeiras eleições que perdi, eu perdi porque o pobre não confiava em mim. E eu não tinha mágoa do pobre por isso. Mas ele me via e dizia: se esse cara é igual a mim, por que eu vou votar nele? Era isso que levava o pobre a desconfiar de mim. Eu precisei perder três eleições, amadureci muito, e a sociedade foi amadurecendo até compreender que poderia votar em mim. Hoje, eu acho que o grande legado que vai ficar da minha passagem pela Presidência são os pobres desse país estarem acreditando que eles podem chegar lá. É isso que eu quero fazer com a mulher. A mulher não é apenas a maioria numérica. Em muitas funções, a mulher é igual ou mais competente do que os homens. Todos vocês são casados e suas mulheres são mais corajosas do que vocês. E a minha também. As nossas mulheres têm coragem de fazer brigas que nós não fazemos. Às vezes, o vizinho enche o saco e nós dizemos que vamos conversar. E a mulher diz: “Não tem essa não.” Ela abre a porta e vai lá. Eu acho isso uma coisa estupenda. A coragem da Marisa para tomar decisão é infinitamente maior do que a minha. Com ela, eu tenho que contemporizar. Não, não vamos brigar agora. E ela diz que tem que resolver já, não tem meio-termo. E eu acho que toda mulher é assim.

ISTOÉ - Como o sr. vê José Serra como adversário de Dilma?
Lula - Para mim, essa é uma eleição engraçada. Três candidatos de oposição foram do meu partido: Marina Silva, do PV, José Maria, do PSTU e Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL. E o Serra é uma pessoa com quem eu tenho uma relação de respeito muito antiga. Quando vejo eles debatendo, não tenho nenhum inimigo. Tenho alguns adversários disputando com a minha candidata. E eu acho que o Serra deu azar. Deu azar de disputar comigo quando eu não podia perder. Digo do fundo da alma, eu nunca tive a menor preocupação de que não ganharia aquela eleição de 2002. Eu estava convencido de que era a minha vez, que tinha chegado a hora. Eu tinha participado da candidatura do (Franco) Montoro e sabia como era isto. Em 1982, não adiantava nada, aquela era a hora do Montoro ser governador. Podia falar o que quisesse. Que ele tinha 20, 80 aposentadorias. Era a hora dele. E foi. Em 2002, eu sabia que era a minha hora. Eu lembro que quando não ganhei no primeiro turno, cheguei no gabinete à noite e havia uns 100 delegados da América Latina, todo mundo lá triste. Estavam lá o Zé Dirceu e o Duda Mendonça na frente da telinha medindo voto, dizendo que ia dar por meio ponto. E eu disse: “Gente, deixa para lá. Tanto faz primeiro ou segundo turno.Vai apenas demorar um pouco mais. E vai ter uma diferença bem maior depois.” E foi uma coisa extraordinária porque o segundo turno permite que você tenha um embate direto. Eu hoje agradeço por todos os santos o segundo turno com o Alckmin, porque eu pude lavar a minha alma. Eu pude aumentar a minha votação em 12 milhões de votos. E ele perdeu três milhões de votos, uma coisa inédita.

ISTOÉ - E qual é exatamente o azar do Serra, presidente?
Lula - Ele foi candidato num ano em que eu não tinha como perder as eleições. E ele agora é candidato num ano em que a Dilma tem todas as condições de ganhar as eleições porque o governo está muito bem e porque as coisas vão melhorar.

ISTOÉ - O sr. acredita em decisão já no primeiro turno?
Lula - Eu acredito no processo eleitoral. Para mim, não importa que seja no primeiro ou no segundo turno. Nós temos é que ganhar as eleições. Temos que trabalhar para ganhar as eleições. E eu acho que é uma eleição que pode terminar no primeiro turno. Mas se for para o segundo turno não existe nenhum problema, nenhum trauma. Nós vamos fazer uma bela campanha.

ISTOÉ - Fala-se muito que há uma grande possibilidade de, em 2014, o presidente eleito agora ter o sr. pela frente. Como está desenhada essa possibilidade?
Lula - Vamos colocar a política no seu devido lugar. Quando você tem um político cretino, ele não quer que o seu aliado ganhe, mas, sim, o adversário para ele voltar quatro anos depois. No meu caso, eu lancei a Dilma candidata porque eu quero que ela ganhe. E porque eu quero que ela faça um governo melhor do que o meu. E que ela tenha direito a ser candidata à reeleição. É um direito legítimo dela. Não tem essa de que a Dilma vai ser candidata para o Lula voltar em 2014. Não existe essa hipótese. Se a Dilma for eleita ela vai fazer um governo extraordinário e vai ser candidata à reeleição. Se o candidato for um adversário, a história muda de figura. Mas, aí, eu preciso estar bem, porque eu já vou estar com 69 anos. E com 69 anos você parece novo, mas não é tão novo, não. Eu, às vezes, acho que na política deveria ser que nem na Igreja Católica, onde o bispo se aposenta com 75 anos.

ISTOÉ - A mais ousada ação do seu governo na política externa nos últimos tempos foi a intermediação da questão atômica com o Irã. O que faltou para o êxito da negociação?
Lula
- É o tipo da coisa que somente o tempo vai se encarregar de mostrar o que aconteceu. Eu não tinha nenhuma relação de amizade com o (Mahmoud) Ahmadinejad. Conheci o Ahmadinejad numa reunião da ONU antes da minha ida a Pittsburgh para discutir o G-20. Tive uma conversa com ele. Discutimos duas horas e a primeira coisa que comecei a discutir era a respeito do Holocausto. Se era verdade ou não que ele não acreditava no Holocausto. E ele disse: “Não foi bem isso que eu quis dizer.” Se não foi bem isso que você quis dizer, então, diga. Porque em política todas as vezes que a gente começa a se explicar muito é porque a gente cometeu um erro. Ele disse: “É porque morreram 67 milhões de seres humanos na Segunda Guerra e parece que só morreram os judeus. Os judeus se fazem de vítimas.” Eu falei que se era isso que ele, Ahmadinejad, queria dizer então dissesse. Morreram 67 milhões de pessoas na Segunda Guerra, mas os judeus não morreram em guerra. Eles foram assassinados a sangue-frio, crianças, mulheres, em câmaras de gás, é diferente. Senti que tinha uma possibilidade de conversa. Ele pessoalmente é muito mais afável do que na televisão.

ISTOÉ - Como o sr. encaminhou a questão?
Lula - Eu cheguei na ONU, cheguei em Pittsburgh, tinham dado uma entrevista o Sarkozy (presidente da França, Nicolas Sarkozy), Gordon Brown (então primeiro-ministro britânico) e Barack Obama (presidente dos EUA) criticando Ahmadinejad. Fui no Obama e falei: “Companheiro, você já conversou com o Ahmadinejad alguma vez? Não. Você se dignou a pegar o telefone, ligar para ele e dizer: eu quero conversar com você? Não”. A mesma conversa eu tive com o Sarkozy, com o Gordon Brown e com a Angela Merkel (chanceler alemã). Ora, vocês nunca conversaram com o Ahmadinejad e estão dizendo que ele não quer sentar à mesa para negociar essa questão da paz. Então eu quero dizer para vocês o seguinte: eu acredito que ele quer sentar e eu estou convidando ele para ir ao Brasil, estou convidando o primeiro-ministro de Israel, estou convidando o Shimon Peres, estou convidando o presidente da Síria para ir ao Brasil. Separadamente, cada um na sua data. Ahmadinejad veio aqui. Nós conversamos mais de duas horas. Eu disse que, se fosse possível a gente avançar, eu mandaria o Celso Amorim ir muitas vezes lá. Como a Turquia também estava tentando, então o Celso Amorim e o ministro das Relações Exteriores da Turquia começaram a conversar com o primeiro-ministro do Irã, preparando a nossa ida lá. Em Copenhague, quase que eu consigo marcar um jantar entre Sarkozy e Ahmadinejad. Mas, como a rainha da Dinamarca não convidou o Ahmadinejad para o jantar, não deu. Chegou o dia de eu ir ao Irã e eu falei para o Celso que era preciso dizer para o Ahmadinejad que eu não poderia fazer uma viagem inútil.

ISTOÉ - O sr. também havia recebido um pedido de Sarkozy para encaminhar ao Ahmadinejad.
Lula - Sarkozy tinha falado conosco da moça que estava presa, se poderia ter um gesto de liberar. Eu conversei com Ahmadinejad e ele se comprometeu a liberar, tanto é que eu cheguei à meia-noite lá e às cinco horas da manhã ele liberou. Duas semanas antes de eu viajar, recebo uma carta do Obama. E a carta do Obama tinha um viés. Primeiro tratando de uma forma carinhosa, se desculpando da grosseria dele quando nós fomos discutir o assunto nuclear lá. Ele achou que eu e a Turquia estávamos sonhando, acreditando no Ahmadinejad, que ele iria enganar a gente, não iria cumprir nada. Eu disse o seguinte: “Eu nasci político, meu filho. Toda a minha vida, desde 1969, foi negociar. Perdi muita coisa, ganhei muita coisa, mas negociar é a arte maior de fazer política. Então eu vou lá porque eu acredito.” Tanto é que quando eu cheguei na Rússia, na viagem para o Irã, Dmitri Medvedev (presidente russo) me disse: “Obama me ligou dizendo que ele acha que você vai ser enganado pelo Ahmadinejad.” Um jornalista perguntou: “Escuta aqui, de zero a seis, qual é o grau de otimismo que você tem para fazer a negociação?” O Medvedev falou 30%. Eu disse: Porra! Que otimismo pessimista! Eu falei 99,9%. Cheguei ao Qatar, o Obama tinha ligado para o emir dizendo que vão enganar o Lula. Cheguei ao Irã, conversamos, conversamos, conversamos. Fui conversar com o líder supremo, Khamenei. Duas horas de conversa. Depois fui conversar com o Ali Larijani (presidente do Parlamento) e com todos falei da importância, que eles não poderiam arriscar o bloqueio.

ISTOÉ - Por que, presidente?
Lula - Porque o bloqueio começa sem dor, mas daqui a pouco começa a faltar remédio, começa a faltar comida. E quem paga o preço são as crianças. Contei que Cuba viveu 50 anos, que a Líbia viveu 13 anos com bloqueio. Eu conversei tudo o que poderia conversar com eles. O Celso Amorim teve um papel extraordinário com os ministros. Chegou no outro dia às 9h da noite e nós fomos jantar. O Celso não estava no jantar e estava o ministro deles. Azedou, pensei. Esse aqui (o ministro Franklin Martins) estava muito pessimista. Na hora que eu saí do hotel, ele falou: “não vai dar nada”. E eu: “Calma, rapaz, tem que ter fé. A fé que move montanhas.” Eu cheguei lá, estava o ministro deles, mas não estava o Celso. Pensei que tinha azedado mesmo. Então disse para o Ahmadinejad: amanhã eu vou embora, sabe que para eu vir aqui eu larguei a minha mulher e os meus filhos, tenho tarefa pra caramba no Brasil. Vim aqui porque eu quero para você o que eu quero para mim. Eu quero que o Irã desenvolva o enriquecimento de urânio para fins pacíficos, para produzir coisas para a indústria farmacêutica, para produzir coisas para a energia nuclear e no meu país isso está na Constituição. E eu não quero que, por equívoco, o mundo rico, que tem bomba nuclear, te impeça de fazer isso. Então, na verdade eu vim aqui para dar as minhas costas para repartir as chibatadas que você está tomando e não gostaria de ir embora sem assinar esse acordo. Se eu for embora sem assinar esse acordo, eu vou ter que começar a fazer discurso dizendo que você não quer negociar mesmo.

ISTOÉ - Depois disso ele resolveu assinar?
Lula - Ele disse: Vamos conversar amanhã de manhã? O ministro dele estava comigo e ia encontrar o Celso ainda. O ministro dele disse assim para mim: “Presidente, falta só um ponto, eu vou encontrar com o Celso agora.” Quando foi meia-noite, eu cheguei ao hotel e o Celso me liga: “Presidente, fechamos.” Nós fomos para acertar o acordo. Tinha físico para dar palpite, como vocês nem imaginam. Os caras não queriam assumir compromisso com data. Eu disse que sem data nós não concordávamos. Eu falei: “Ahmadinejad, vocês sabem o que falam de você. Lá fora na Europa, nos Estados Unidos, falam que você não cumpre palavra, você sabe disso. Por isso é importante colocar a data dizendo que tal dia você vai mandar tal coisa”. Ele topou. Qual foi a minha surpresa, companheiros? É que o pessoal que estava há não sei quantos anos tentando conversar com o Ahmadinejad e nunca conversou, porque nunca tentou, ficou com ciúmes. Por isso a reação. Na minha opinião, essa é a única explicação para a ciumeira do Conselho de Segurança da ONU. Nós ainda mandamos para o grupo de Viena, com Rússia, Estados Unidos e França, a carta no domingo, e ainda assim eles tentaram barrar. Eu acho que a história vai mostrar o equívoco dos companheiros que resolveram trocar as conversas pelas sanções, porque demonstraram apenas ciúmes. Em minha opinião, uma atitude pequena. O problema é o seguinte: se a ONU continuar fraca do jeito que está, vai prevalecer o unilateralismo, a posição unilateral dos americanos vai continuar prevalecendo. Quando nós propusemos fortalecer a ONU, não queríamos só a entrada do Brasil. Mas a entrada do Brasil, da Índia, da Alemanha, de dois ou três países africanos.

ISTOÉ - Mas uma luta histórica do Brasil é pelo assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU.
Lula - É para que tenha mais representatividade. Imagine o continente africano com 53 países que não tem ninguém. E quantos têm os europeus? E agora tem mais a Alemanha, convidada especial. O Conselho de Segurança da ONU não pode ser um clube de amigos, não pode ser tratado assim. Aquilo tem que ser uma instituição multilateral para resolver problema de conflitos. Em minha opinião, no Oriente Médio não haverá solução enquanto os americanos acharem que são eles os responsáveis pela construção da paz. Se a ONU fosse forte, resolveria o problema do Oriente Médio. Iria lá, demarcaria a terra dos palestinos, demarcaria a terra de Israel e faria cumprir, como fez em 1948, quando criou o Estado de Israel. Como ela é fraca, fica só lá, um dia vai um e ganha o Prêmio Nobel, outro dia vai outro e ganha o Prêmio Nobel, não faz nada, outro dia vai outro e outro prêmio. Então, eu acho que é uma estupidez política não reformar o Conselho de Segurança da ONU.

ISTOÉ - Nesses oito anos, o sr. se arrepende de algo que não fez?
Lula - Talvez nesses cinco meses de reflexão que eu pedi para vocês, vá surgir muita coisa. Eu fiz uma proposta de política tributária que todo mundo dizia que precisava. Fiz uma em consenso com os governadores, com todos os empresários, com todos os dirigentes sindicais, com todos os lideres partidários e ela não foi aprovada. Mandei para o Congresso Nacional e não foi votada. Então tem um desgraçado de um inimigo oculto que está trancado em algum armário e não permite que se vote a reforma tributária.

ISTOÉ - Com qual legado o sr. quer ser lembrado daqui para a frente?
Lula - O mais importante é a relação que eu estabeleci com a sociedade. No meu governo, eu fiz 72 conferências nacionais, de tudo o que você possa imaginar. Todas as políticas públicas que nós colocamos em prática são resultado de milhares de pessoas participando nos municípios, nos Estados, até chegar aqui. Esse é o legado que nós vamos deixar, que nenhum presidente vai ter coragem de mudar. Há muitas coisas que me emocionam (fala com os olhos marejados). Foi um processo educativo. De a gente teimar que era possível provar o seguinte: o Palácio de um governo não é apenas para receber príncipe, rainha ou presidente. É para receber do pé descalço ao cara que está de sapato alto. Essa foi a coisa rica do governo. Os sem-teto entrando lá dentro e chorando. Os cegos também entraram. Aprovamos aposentadoria para hansenianos que ficaram mais de 30 anos em colônias. Beijei cada um, porque nunca um presidente havia encostado neles, possivelmente de nojo. Eu acho que esse é o legado. Todos os anos, eu me reuni com reitores, com prefeitos. Não houve segmento da sociedade que ficou de fora: foi do empresário mais rico ao cidadão mais pobre. Eu acho que esse é o grande legado que espero que seja um grande aprendizado para o nosso país. Deus queira que o Brasil continue andando desse jeito. Se continuar assim por mais seis, sete anos, nós seremos a quarta economia do mundo. O povo vai estar comendo mais e consumindo mais. Eu adoro quando vejo os jornais dizerem, às vezes em letrinhas pequenas lá embaixo no rodapé, que os pobres estão comendo mais e que o consumo aumentou, que a classe D está comprando mais. Eu acho tudo isso fantástico. Mas ainda falta muito para fazer.

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9

de
agosto

“Ninguém vai destruir minha relação com a sociedade” - Parte 1. Entrevista de Lula a Isto É

O blog publica na íntegra entrevista com o presidente Lula a revista Isto É, em sua primeira parte. No próximo artigo será publicado a segunda parte.

ISTOÉ - O sr. deixa o Planalto como o presidente mais popular da história do País. Como pensa em administrar esse patrimônio depois de sair do governo?
Luiz Inácio Lula da Silva - O meu medo é tomar uma atitude precipitada sobre o que eu vou fazer. Montar alguma coisa e depois de seis meses descobrir que não era aquilo. Então, eu acho que alguém que deixa o mandato, como vou deixar, numa situação graças a Deus muito confortável, tem que dar um tempo de maturação. Preciso de um tempo, quem sabe quatro, cinco, seis meses. Tem que deixar a Dilma construir um governo que seja a cara dela, do jeito dela, e eu ficarei no meu canto, curtindo o fato de ser um ex-presidente da República.

ISTOÉ - Isso é possível, presidente?
Lula - O Felipe González (ex-primeiro-ministro da Espanha) contou-me uma história que eu faço questão de repetir. Ex-presidente é que nem aquele vaso chinês que você ganha de presente. Você não sabe onde colocar o ex-presidente. Ele passa a ser incômodo se não se tocar que é um ex-presidente. Essa é a parte mais séria da história. Quero dar um tempo maior. O que eu pretendo fazer? O acúmulo de acertos nas políticas sociais que nós tivemos no Brasil precisa ser socializado. Eu quero socializar essas políticas com os países da América do Sul, do Caribe, com os países africanos. Eu já tenho muitos convites de países africanos para ir lá e mostrar a ideia e o que nós fizemos. Mas é para ir lá com tempo, para ir a campo.

ISTOÉ - O sr. fará as caravanas internacionais, então?
Lula - Eu não sei se serão as caravanas como as que eu fazia aqui no Brasil. Mas pretendo construir uma equipe de companheiros que acumularam oito anos de experiência no governo e 30 anos de experiência enquanto oposição, para que a gente tente colocar em prática, junto aos governantes dos países mais pobres, as condições de eles terem uma política de desenvolvimento social.

ISTOÉ - É preciso ter um cargo para isso, como o de presidente do Banco Mundial?
Lula - Não. É só a vontade política.

ISTOÉ - Mas vários governantes falam de seu nome para ocupar um organismo internacional multilateral. O que o sr. acha disso?
Lula - Tenho companheiros que falam, olha Lula você vai para a ONU. Eu tenho uma ideia diferente. Acho que a ONU é uma instituição que tem que ser dirigida por um burocrata, que tenha a consciência de que ela é subordinada aos presidentes dos países. Porque se você coloca alguém lá, que, por coincidência, tenha mais força que alguns presidentes, haverá, no mínimo, uma anomalia. Você fica com uma instituição criada para servir os países com gente mandando mais. Imagine se a moda pega e os ex-presidentes americanos resolvem ser secretário-geral da ONU.

ISTOÉ - Mas o sr. recusaria um convite nessa direção?
Lula - Eu recusaria. Recusaria essa coisa de Banco Mundial. Eu tenho consciência do seguinte: tenho 64 anos e quando deixar a Presidência vou ter 65 anos, logo ainda tenho uma contribuição política para dar ao País. Eu sonho com a construção de uma frente ampla no Brasil. Juntar as forças políticas aqui, construir um programa comum, fazer a reforma partidária, que acho que é uma condição sine qua non para a gente poder mudar em definitivo o Brasil. Temos que fazer a reforma partidária. Isso não é coisa de presidente da República. Isso é coisa dos partidos políticos. E eu, de fora, pretendo ajudar o meu partido a organizar os outros partidos em torno da ideia da reforma política.

ISTOÉ - O projeto de um instituto para irradiar essas ideias também está em curso?
Lula - Também está em conta. Mas agora estou com a minha cabeça voltada para o seguinte: tenho mais cinco meses de governo. Tem muita coisa para acontecer, e sabe do que eu tenho medo? Eu sou muito amante do futebol e o que eu jamais faria como técnico é marcar um gol, correr para a retranca e ficar esperando o adversário vir para cima de mim. Então, tenho muito trabalho pela frente. Quero trabalhar até o dia 31 de dezembro. Tenho agenda até o dia 29 de dezembro, tenho agenda no dia 28 de dezembro, eu quero ter agenda até o último dia de trabalho. No dia que eu entregar a faixa para quem for eleito presidente da República, aí sim…

ISTOÉ - Presidente, pelas pesquisas atuais, há uma grande chance de o sr. entregar a faixa para a ex-ministra Dilma Rousseff. A que o sr. atribui o êxito de Dilma? Foi graças ao empenho do sr.? É o perfil dela?
Lula - Acho que há um conjunto de valores. Primeiro, é preciso ter muita humildade para pedir para o povo votar na Dilma. Um voto é um direito livre e soberano de cada cidadão, mas, como eu passei por aqui oito anos e sei como funciona isso, sinto-me na obrigação de dizer ao povo quem eu entendo que poderia dar continuidade àquilo que nós estamos fazendo. Esta é a primeira coisa com que nós temos que ter todo o cuidado. A segunda coisa é a seguinte: um governo que tem 76% de bom e ótimo nos últimos cinco meses de mandato, um presidente da República que tem 86% de bom e ótimo e se colocar regular vai a 98%, 97% em alguns Estados, é um governo com forte possibilidade de fazer a sucessão. Tem uma aliança política muito forte. Tem muitos candidatos a governador apoiando a ministra Dilma. Ela está muito bem preparada, não tem hoje no Brasil ninguém mais preparado do que a Dilma, do ponto de vista de ter o Brasil na cabeça.

ISTOÉ - Mas o sr. construiu sua candidata do zero, não é, presidente?
Lula - É por isso que nós preparamos o PAC 2. Porque eu poderia deixar para ela preparar em janeiro. Mas o que eu quis na verdade foi, primeiro, definir as obras prioritárias para o Brasil com os governadores e os prefeitos, colocar dinheiro tanto no orçamento quanto na LDO. Então quem começar a governar não vai ter que encher a bola. A bola vai estar cheia e o cara vai começar jogando. Eu acho que a Dilma está extremamente preparada e madura politicamente. Acho que a vantagem da Dilma é que ela não tinha pretensão. Acho que jamais passou pela cabeça da Dilma que ela seria escolhida candidata a presidente da República

ISTOÉ - E na cabeça do sr. qual foi o primeiro momento?
Lula - O primeiro momento que me veio na cabeça foi quando eu, na Favela da Rocinha, no Rio, disse que ela era a mãe do PAC. Ali, na verdade, eu estava começando a preparar.

ISTOÉ - O sr. chegou já chegou lá com a ideia de fazer essa declaração?
Lula - Foi na hora, em função do clima, que eu falei. E foi importante naquele momento.

ISTOÉ - Muita gente pensava que sua candidata seria a Marina Silva, que, pelo histórico, era considerada o Lula de saias. Por que a Marina Silva não foi a sua escolha?
Lula - Quando a gente vai escolher alguém para ser presidente da República, essa pessoa tem que ter um acúmulo de qualidades, e não apenas um pouco de qualidades. A Marina é minha companheira de 30 anos. Vocês jamais ouvirão da minha boca uma palavra ou uma vírgula que possa falar mal da Marina. Um ano antes de deixar o governo, a Marina pediu demissão. Eu não aceitei a demissão dela por conta da Dilma Rousseff. A Dilma e o Gilberto Carvalho me pediram para convencê-la a ficar. Ela ficou mais um ano, até que quis sair. Até hoje não me explicou por que saiu do PT e eu não fui tomar satisfação do motivo por que ela saiu.

ISTOÉ - Antes da Dilma, o sr. chegou a pensar em outros nomes? No seu primeiro mandato havia Palocci, José Dirceu…
Lula - Obviamente, se não tivesse acontecido com o PT o que aconteceu em 2005, o quadro político poderia ser outro. Mas a Dilma, então, veio para a Casa Civil. E eu já contei que a Dilma foi escolhida ministra de Minas e Energia por conta de uma reunião que eu estava fazendo em São Paulo, preparando 2002. Quando ela chegou, depois de uma hora de reunião, eu falei: é a minha ministra. Tanto é que o Zé Dirceu já tinha feito acordo com o PMDB para ter o Ministério de Minas e Energia e eu disse: “Desfaça tudo porque eu já tenho a ministra.” E ela foi de uma competência exuberante na construção do marco regulatório do modelo de energia elétrica do Brasil. Quando ela veio para a Casa Civil começamos a trabalhar juntos, a nos reunir cotidianamente, a discutir as reuniões. Aí eu percebi que estava diante de um animal político não trabalhado. De um animal político que foi educado a vida inteira para ser técnica. E eu comecei a falar: bom, agora nós temos que descobrir o lado político de Dilma.

ISTOÉ - E como o sr. fez?
Lula - Fui colocando a Dilma em várias reuniões das quais, teoricamente, ela não precisaria participar. Comecei a levá-la para viajar comigo para que começasse a ver o mundo de uma concepção mais política. Eu acho que hoje ela é uma figura extraordinariamente preparada. Lógico que na política você está sempre se preparando. Às vezes, as pessoas ficam comparando a Dilma comigo. Mas não é possível, porque eu venho de um mundo diferente. Comecei diferente. E tenho um acúmulo diferente.

ISTOÉ - Mas a geração é a mesma…
Lula - É a mesma, mas traçamos caminhos diferentes. Eu acho que o que é importante é que ela é hoje uma mulher sem ressentimentos, sem mágoa. Eu conto sempre o dia em que eu desci com Dilma de helicóptero no Quartel do 2º Exército em São Paulo. Quando o helicóptero parou, ela ficou olhando, olhando e disse: “Foi aqui que eu fui trazida quando fui presa.” E depois me disse: “Engraçado, não estou ressentida.” Descemos lá, fomos tomar café, cumprimentamos todo mundo. Eu achei isso um gesto de superação, o que é importante para alguém governar esse país. Quando chega ao cargo de presidente da República, ninguém tem o direito de ter mágoa, rancor, ressentimento, de dizer eu não gosto de fulano. Não tem esse direito.

ISTOÉ - Um dos ministros mais importantes para o sr. foi o Palocci, que agora está na campanha de Dilma. Como o sr. vê o papel dele num eventual futuro governo Dilma?
Lula - Esse é um problema do futuro governo. Mas eu vou dizer o que penso do Palocci. Acho que no Brasil nós temos, se é que temos, raríssimas pessoas com a inteligência política do Palocci. Digo sempre que eu credito uma parte do sucesso do meu governo aos primeiros dois anos, quando nós tivemos que comer carvão em vez de filé mignon. Quando tivemos que trocar todo o capital político que eu tinha por uma política fiscal dura. Assim, a gente pôde chegar aonde chegou. Possivelmente, se não fosse o Palocci, nós não teríamos feito isso. Talvez pela qualidade de médico, de não sentir a dor que sente o paciente, ele manejava a economia com uma maestria que possivelmente um economista não manejasse. Eu devo muito do sucesso do meu governo ao Palocci. Ele é um animal político que certamente dará contribuições enormes a esse país. Ele é muito jovem e acho que ainda tem muita contribuição para dar.

ISTOÉ - A Dilma não era uma escolha clara do PT, mas o sr. fez valer sua vontade. O sr. acha que ficou maior do que o PT?
Lula - É humanamente impossível fazer qualquer teste de DNA no PT e não me encontrar lá dentro. Da mesma forma é muito difícil fazer um DNA em mim e não encontrar o PT aqui dentro. O fato de eu ter sido presidente me transformou numa figura infinitamente mais projetada do que o PT. Mas isso não significa que eu seja maior do que o PT. É um partido muito organizado no Brasil inteiro, que tem muita força. Agora, acho que nós temos condições de construir uma coisa mais forte. Eu tenho dito a alguns companheiros que não é uma tarefa fácil, mas eu gostaria de criar, dentro de um processo de reforma política, uma frente ampla de partidos que pudesse construir um programa para o Brasil, mais forte do que um partido. Pode ter gente de todos os partidos, pode ter a maioria dos partidos.

ISTOÉ - Isto seria o fim do PT?
Lula - Não. É uma espécie de seleção brasileira. O Corinthians não deixa de ser Corinthians porque o Mano Menezes convocou o Jucilei. E nenhum time deixa de ser porque teve craques convocados. É uma coisa maior para construir um arco de alianças maior.

ISTOÉ - Esse grupo poderia ter o PSDB?
Lula - Eu acho que acabou o tempo da ilusão em que a gente poderia trabalhar junto com o PSDB. Eu acreditei nisso. E muita gente do PT acreditou nisso.

ISTOÉ - O sr. acha que o PSDB foi para a direita?
Lula - Acho que eles escolheram outro projeto. Vocês estão lembrados que, logo que o Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência, ele juntou gente que na época se comportava como de esquerda, como o PPS. Aquelas pessoas achavam que iriam ter uma participação no governo. Qual foi o problema? Foi a reeleição, que conduziu para uma relação promíscua com o Congresso Nacional e a coisa desandou um pouco. Essas coisas são muito fáceis de falar, mas é muito difícil fazer, porque para construir uma frente ampla é preciso construir uma direção partidária, que as pessoas respeitem, que vejam nela uma liderança. De qualquer forma, como vou ter tempo, essa questão política vai voltar com muita força na minha cabeça. Acho que nós temos que fazer um reforma para moralizar a política no Brasil, fortalecer os partidos políticos, para moralizar a fidelidade partidária, para parar com esse negócio de judicializar a política como ela está judicializada. Isso se faz com o debate político. E eu quero estar vivo no debate político.

ISTOÉ - Como sua imagem, que nem os adversários atacam nesta campanha, pode ser usada sem ofuscar a candidata? Qual é a dosagem certa?
Lula - Fico feliz em saber que ninguém quer fazer campanha falando mal de mim. É uma coisa boa, é agradável. Mas eu tenho um lado, um partido e um candidato. E isso eu faço questão de deixar público durante o processo eleitoral. Uma coisa a gente tem que compreender: eu cito muito futebol porque futebol é a coisa mais fácil do povo entender. Não existe a possibilidade de o Lula ofuscar a grandeza da candidata, porque vai chegando o momento em que o clima na sociedade, na imprensa, no debate, é da candidata, não é do presidente. A sociedade vai percebendo isso. É muito melhor para a candidata se ela tiver um presidente que ela não tenha que ter vergonha de dizer que é apoiada por ele, como o Al Gore fez com o Bill Clinton.

ISTOÉ - O PT não terá mais influência num governo de Dilma do que teve no seu?
Lula - Quem fala isso não conhece a Dilma. Ela é uma mulher de personalidade muito forte. O PT está na direção da campanha da Dilma, como estava na direção da minha.

ISTOÉ - Mesmo o relacionamento do sr. com o PT foi mudando…
Lula - A minha relação com o PT era diferente porque eu fui o criador do PT. Fui 13 anos presidente do PT. A minha relação com o partido sempre foi diferente da relação da Dilma, que é uma filiada. A direção do PT hoje está totalmente afinada com a candidata e a candidata totalmente afinada com a direção.

ISTOÉ - E aquele episódio do programa de governo diferente, apresentado pelo PT?
Lula - Vocês não podem errar e confundir uma tese com o programa. Quando se constrói um programa suprapartidário, cada partido constrói uma palavra, uma vírgula. Enquanto não há operação definitiva que diga “está pronto o programa”, não é programa, é pré-programa. E no pré-programa entra qualquer coisa. O programa não é do PT nem pode ser. O programa tem que ser uma síntese do pensamento dos partidos que compõem a base de apoio da ministra Dilma. É com isso que ela vai governar o País. E ela e o partido têm clareza disso.

ISTOÉ - O sr. acha que ela conseguirá ter ascendência política sobre o partido?
Lula - Vai ter. Deus queira que ela não tenha muita ascendência, porque não é importante que a candidata passe a ser muito mais forte, porque pode querer desrespeitar o partido. Eu quero que ela passe a ter uma relação com o partido de liderança, de respeito, que não tenham medo dela. Eu quero que os dois se respeitem. Se os dois se respeitarem, eles vão divergir, vão brigar, mas vão construir o melhor.

ISTOÉ - Como o sr. vê a relação com o PMDB, tradicionalmente fisiológico, que exige ministérios e muitos cargos no governo?
Lula - Eu não acho que seja assim. Nós temos que levar em conta que o PMDB é um partido forte. E que continuará sendo. É um partido que tem muitos vereadores, muitos prefeitos, muitos deputados, muitos senadores. Sempre, qualquer que seja o governo, de ultraesquerda ou de ultradireita, será preciso trabalhar com o PMDB. Quando nós fizemos a Constituição de 1988, esse foi um equívoco. Nós construímos uma carta parlamentarista. Fizemos um plebiscito e o parlamentarismo tomou uma trolha de 80%. Só para vocês saberem, a direção do PT, da qual eu fazia parte, era parlamentarista. Mas eu ia para o debate e o pessoal falava assim para mim: “Ô Lula! Você é tonto, rapaz! Agora que está chegando a hora de a gente chegar ao poder você quer transferir poder para o Congresso te eleger? Não vão te eleger nunca.” Nós perdemos internamente no PT. A direção tomou uma surra. Acho que mais de 70% ficaram contra a direção.

ISTOÉ - O sr. continua parlamentarista?
Lula - Eu acho que tudo está ligado à evolução cultural da sociedade. O parlamentarismo não dará certo, como não dará certo uma cooperativa, se você criá-lo de cima para baixo. Eu, por exemplo, trabalhava com a ideia de que era favorável ao voto distrital. Como eu imaginei organizar o PT por núcleos, em cada rua, em cada vila, pensava numa organização tão forte que não haveria dinheiro no mundo capaz de ganhar uma eleição de você. Eu sonhava isso. Você teria como candidatos as grande personalidades e as lideranças sociais. Mas muita gente no PT não acreditava nisso. Defendiam que tem que se pedir voto para todo mundo. Mas essa história favorece quem? Quem tem dinheiro. Eu conheci deputado que pegava helicóptero e viajava para o interior para passar a tarde carregando gente. Parava em campo de futebol, colocava o sujeito dentro do helicóptero e dava uma volta. Ganhava o voto do tadinho que nunca andou de helicóptero. Mas também esse processo de mudança não pode ser um estupro. Ter a maioria e empurrar na garganta da minoria, não. O problema é que não há muito debate.

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7

de
agosto

Avaliação do 1º Debate com os candidatos à Presidência da República na Band

Ontem à noite a TV Bandeirantes manteve a tradição iniciou o período de debates entre os candidatos à Presidência da República na TV aberta. Foram convidados: Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB), Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (Psol), este último não se esperava a sua presença pelo seu baixo desempenho nas pesquisas. Para o bem da democracia no Brasil, parabéns a Band pelo espaço ao candidato Plínio.

O debate na Band, na última quinta, foi o primeiro que Dilma participou como candidata. Por conta disso, ficou evidente o seu nervosismo, insegurança em responder em alguns momentos e respostas superficiais em outros. Pareceu (o que está a cada dia mais evidente, mas que poderá ser revertido) que Dilma fora programada para responder algumas questões previstas por sua assessoria, o que fugia do roteiro, foi instável, fato previsto por alguns petistas próximos a candidata. Neste primeiro debate, Dilma demonstrou a sua maior fraqueza: a falta de improviso, qualidade que sempre falta a candidatos de perfil mais técnico como a própria.

Como saída a sua fragilidade, a candidata petista usou da estratégia da comparação de governos. Colocou na pauta do debate em sua fala as diferenças e a supremacia do governo Lula com relação ao de FHC. Nesta questão Dilma se saiu super bem sobre os adversários, principalmente a Serra, deixando o tucano desconcertado quando comparou a criação de empregos entre os governos. Dilma tem a vantagem de conhecer bem os números do governo (apesar de se atrapalhar com eles em alguns momentos do debate), pois foi ministra Chefe da Casa Civil do governo Lula, onde passava muitos processos por sua mesa, além de chefiar o gerenciamento dos dois principais programas do segundo mandato de Lula: “Minha Casa, Minha Vida” e os Pac´s 1 e 2.

Já o candidato tucano, José Serra, manteve a postura já esperada e que repete de muitos debates: tom professoral nas e respostas, segurança na fala, reforço da sua história política, do seu currículo e a novidade: senso de humor apurado, sorridente. No meu entendimento, para um candidato que está em segundo nas pesquisas e que está em franco processo de desidratação política, a postura de Serra no debate foi extremamente conservadora. A cada pesquisa divulgada (com exceção do DataFolha, por motivos óbvios) Serra vê sua diferença para a primeira colocada, Dilma Rousseff, aumentar. Segundo a última pesquisa lançada na praça, a do CNT/Sensus, o candidato tucano está 10 pontos atrás da petista. Diferença considerável e até, confortável. O tucano preferiu não arriscar, mantendo-se na defensiva. O ponto mais hilário do debate, foi quando Serra foi chamado de Hipocondríaco pelo candidato Plínio de Arruda, levantando risos da platéia que assistia. 

No entendimento do blog, Marina Silva, foi a maior decepção do debate. A candidata do PV não empolgou na sua fala, manteve discurso ambiental carente de embasamento teórico, facilitando o ataque de seus adversários. Marina agiu e teve postura de pessoa descompromissada com o debate, parecia mais uma mediadora do que uma debatedora. Parecia anestesiada, sem entusiasmo, sem defini posição. Elogiou tucanos e petistas, ficando em cima do muro durante o tempo todo. Foi chamada por Plínio de “ecocapitalista”, ou seja, seu discurso ambiental não condiz com preocupações sociais.

Plínio de Arruda Sampaio, candidato do Psol, veio ao debate com o seguinte objetivo: atirar em seus adversários e propor ao eleitor alternativa diferente, projeto novo, encarnando pelo Psol. No início da sua fala, Plínio começou a mostra por que estava ali, criticando a forma de como parte da mídia trata a sua campanha, não a considerando. Por isso agradeceu ao grupo Bandeirantes pela oportunidade. Criticou Serra, Marina e Dilma, por considerar que o trio não representa mudanças ao Brasil, apenas continuidade com pequenas diferenças entre os projetos apresentados.

O discurso de Plínio se enquadra na mesma fala de Lula nos anos 80, quando aspirava à vida política. A diferença é que Plínio é um intelectual reconhecido, com base e discurso teórico bem sólido. Defende abertamente a intervenção do Estado sobre a economia, o discurso marxista, que segundo ele é a única forma de diminui o câncer brasileiro: a desigualdade social. O problema é que a grande maioria do povo brasileiro nunca ouviu falar de karl Marx. Para muitos Plínio fala grego.

Outro ponto a favor do candidato psolista foi a forma de como se apresentou ao telespectador, bem direto e incluindo em sua fala quem o assiste. O resultado do debate foi sentido nas ruas e nos artigos dos cientistas políticos: Plínio faturou com o debate, ganhou adeptos nas redes sociais e forçou outras emissoras de chamá-lo nos próximos debates.

Como termômetro, o primeiro debate serviu para colocar os candidatos frente a frente e analisá-los. As próximas pesquisas já serão produtos dos desempenhos dos candidatos. Vamos aguardar.

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3

de
agosto

A pesada herança política de FHC

Ao assistir no último domingo o programa de entrevista da jornalista Marília Gabriela pelo SBT, que teve como entrevistado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma situação ficou bem clara: o distanciamento de FHC da campanha de Serra e vice-versa.

O mesmo fato ocorreu nas eleições de 2002 e 2006. O próprio Serra que foi o candidato escolhido pelo então presidente Fernando Henrique para sucedê-lo em 2002, teve que se desvincular do presidente tucano para tentar vencer Lula na disputa. As críticas e o desgaste político do governo FHC derrubaram qualquer chance de vitória de Serra. O mesmo distanciamento proposital ocorreu em 2006, com Geraldo Alckmim, em relação ao governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Por quê?

Essa questão é interessante de se analisar. Os candidatos à Presidência da República pelo PSDB após FHC tentam a todo custo se descolar da gestão de Cardoso. Esta teria sido tão ruim assim?

Os próprios tucanos se gloriavam da época que estavam no poder pelos feitos alcançados, principalmente na área econômica, com a estabilidade da moeda com o Plano Real. Esse parece ser único discurso que se mantém da época de FHC.

Apesar de algumas vitórias e alguns frutos colhidos, Fernando Henrique carrega pesada herança, que poucos querem ou não tem a capacidade de carregá-la. O PT na época era oposição e soube angariar dividendos políticos com o processo privatista tucano.

A forma desastrosa de como foi conduzida a abertura econômica pelo governo tucano e o ingresso às escuras no Neoliberalismo pesaram negativamente contra o PSDB, e hoje, pesam contra a candidatura de Serra. A direção tucana orientou de forma amena o ex-presidente Fernando Henrique para manter certa distância do processo eleitoral, sua atuação poderá pesar contra Serra.

Repetindo 2002, o PT na eleição presidencial seguinte atacou Geraldo Alckmim com pesadas críticas a gestão FHC, espalhando a tentativa de ressurgir com o processo de privatização. A tática petista deu certa novamente. Para 2010, depois de duas derrotas consecutivas, os tucanos aprenderam a lição, procurando evita que os erros voltem acontecer.

Por conta disso, os tucanos não atacam o governo Lula. Com mais de 70% de popularidade, não seria inteligente medir força com o presidente. Tanto que o mote da campanha é “O Brasil pode mais”, claro discurso continuista do PSDB, buscando ser uma alternativa a era pós-Lula.       

Se Serra perder a eleição em outubro para Dilma, reforçará afirmação de muitos: “o maior adversário do PSDB hoje não é o PT, mas a herança deixada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso”.

1

de
agosto

Por que apoiamos Dilma? Editorial da revista Carta Capital

Resposta simples: porque escolhemos a candidatura melhor 

Guerrilheira, há quem diga, para definir Dilma Rousseff. Negativamente, está claro. A verdade factual é outra, talvez a jovem Dilma tenha pensado em pegar em armas, mas nunca chegou a tanto. A questão também é outra: Carta Capital respeita, louva e admira quem se opôs à ditadura e, portanto, enfrentou riscos vertiginosos, desde a censura e a prisão sem mandado, quando não o seqüestro por janízaros à paisana, até a tortura e a morte. 

O cidadão e a cidadã que se precipitam naquela definição da candidata de Lula ou não perdem a oportunidade de exibir sua ignorância da história do País, ou têm saudades da ditadura. Quem sabe estivessem na Marcha da Família, com Deus e pela Liberdade há 46 anos, ou apreciem organizar manifestação similar nos dias de hoje. 

De todo modo, não é apenas por causa deste destemido passado de Dilma Rousseff que Carta Capital declara aqui e agora apoio à sua candidatura. Vale acentuar que neste mesmo espaço previmos a escolha do presidente da República ainda antes da sua reeleição, quando José Dirceu saiu da chefia da Casa Civil e a então ministra de Minas e Energia o substituiu. 

E aqui, em ocasiões diversas, esclarecesse o porquê da previsão: a competência, a seriedade, a personalidade e a lealdade a Lula daquela que viria a ser candidata. Essas inegáveis qualidades foram ainda mais evidentes na Casa Civil, onde os alcances do titular naturalmente se expandem. 

E pesam sobre a decisão de Carta Capital. Em Dilma Rousseff enxergamos sem a necessidade de binóculo a continuidade de um governo vitorioso e do governante mais popular da história do Brasil. Com largos méritos, que em parte transcendem a nítida e decisiva identificação entre o presidente e seu povo. Ninguém como Lula soube valer-se das potencialidades gigantescas do País e vulgarizá-las com a retórica mais adequada, sem esquecer um suave toque de senso de humor sempre que as circunstâncias o permitissem. 

Sem ter ofendido e perseguido os privilegiados, a despeito dos vaticínios de alguns entre eles, e da mídia praticamente em peso, quanto às consequências de um governo que profetizaram milenarista, Lula deixa a Presidência com o País a atingir índices de crescimento quase chineses e a diminuição do abismo que separa minoria de maioria. Dono de uma política exterior de todo independente e de um prestígio internacional sem precedentes. Neste final de mandato, vinga o talento de um estrategista político finíssimo. E a eleição caminha para o plebiscito que a oposição se achava em condições de evitar. 

Escolha certa, precisa, calculada, a de Lula ao ungir Dilma e ao propor o confronto com o governo tucano que o precedeu e do qual José Serra se torna, queira ou não, o herdeiro. Carregar o PSDB é arrastar uma bola de ferro amarrada ao tornozelo, coisa de presidiário. Aí estão os tucanos, novos intérpretes do pensamento udenista. Seria ofender a inteligência e as evidências sustentar que o ex-governador paulista partilha daquelas idéias. Não se livra, porém, da condição de tucano e como tal teria de atuar. Enredado na trama espessa da herança, e da imposição do plebiscito, vive um momento de confusão, instável entre formas díspares e até conflitantes ao conduzir a campanha, de sorte a cometer erros grosseiros e a comprometer sua fama de “preparado”, como insiste em afirmar seu candidato a vice, Índio da Costa. E não é que sonhavam com Aécio… 

Reconhecemos em Dilma Rousseff a candidatura mais qualificada e entendemos como injunção deste momento, em que oficialmente o confronto se abre, a clara definição da nossa preferência. Nada inventamos: é da praxe da mídia mais desenvolvida do mundo tomar partido na ocasião certa, sem implicar postura ideológica ou partidária. Nunca deixamos, dentro da nossa visão, de apontar as falhas do governo Lula. Na política ambiental. Na política econômica, no que diz respeito, entre outros aspectos, aos juros manobrados pelo Banco Central. Na política social, que poderia ter sido bem mais ousada. 

E fomos muito críticos quando se fez passivamente a vontade do ministro Nelson Jobim e do então presidente do STF Gilmar Mendes, ao exonerar o diretor da Abin, Paulo Lacerda, demitido por ter ousado apoiar a Operação Satiagraha, ao que tudo indica já enterrada, a esta altura, a favor do banqueiro Daniel Dantas. E quando o mesmo Jobim se arvorou a porta voz dos derradeiros saudosistas da ditadura e ganhou o beneplácito para confirmar a validade de uma Lei da Anistia que desrespeita os Direitos Humanos. E quando o então ministro da Justiça Tarso Genro aceitou a peroração de um grupelho de fanáticos do Apocalipse carentes de conhecimento histórico e deu início a um affair internacional desnecessário e amalucado, como o caso Battisti.

Hoje apoiamos a candidatura de Dilma Rousseff com a mesma disposição com que o fizemos em 2002 e em 2006 a favor de Lula. Apesar das críticas ao governo que não hesitamos em formular desde então, não nos arrependemos por essas escolhas. Temos certeza de que não nos arrependeremos agora. 

Nota do Blog:

O texto acima foi retirado do site da revista Carta Capital, onde o referido veículo tornou explicito quem apoiará para presidente nas próximas eleições, a candidata petista, Dilma Rousseff. A postura da Carta Capital é normal, perfeitamente aceitável dentro do processo democrático. O problema não está em declarar o voto, mas em apoiar candidaturas nos bastidores, aparentemente descompromissada para os leitores e sociedade de um modo geral.

 Diferentemente do que acontece no Brasil, em diversos países europeus e nos Estados Unidos a mídia define claramente seu posicionamento político. De qual lado está. Aqui, os grandes veículos de informação mantêm seu apoio de forma mascarada, sem evidenciá-los ao grande público. Somente os mais esclarecidos conseguem distinguir entre uma reportagem e outra qual o interesse desta ou daquela revista.

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27

de
julho

Dilminha paz e amor

No auge da campanha do então candidato à Presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva, o mesmo se viu obrigado a assumir postura amena, serena e passiva.  Ingredientes da nova receita petista, o “Lulinha paz e amor”, que tinha como objetivo diminuir a resistência de setores da sociedade e da mídia ao candidato Lula, tornado-o mais competitivo.

O resultado todos conhecem: o petista ganhou a disputa contra o tucano José Serra, candidato a sucessão do então presidente Fernando Henrique. Lula chegou ao poder em 2003, reelegendo-se quatro anos depois. Na disputa de 2002, a quarta consecutiva do petista, o PT além de se tornar mais “simpático” eleitoralmente, produziu documento que garantia o cumprimento das promessas de campanha e acordos firmados no período, o que ficou conhecido como “Carta ao povo brasileiro”.

Agora com Lula fora da disputa (a primeira depois de duas décadas), o PT (ou por força do Lulismo, o próprio Lula) indicou a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para sucedê-lo. Todos sabem que o sucessor natural de Lula seria José Dirceu e Palocci seria o terceiro na linha sucessória petista. Ambos caíram por denúncias e escândalos. Cabia então a Lula escolher ou encontrar em seu partido, alguém que se enquadrasse em suas exigências.

Dilma Rousseff, após o processo de redemocratização do Brasil pós ditadura, filiou-se ao PDT (Partido Democrático Trabalhista) de Leonel Brizola, chegando ao PT em meados de 90. Atuando nas gestões petistas na prefeitura de Porto Alegre e no governo gaúcho. Trabalhou diretamente na transição do governo FHC para o de Lula, onde sua atuação foi reconhecida, sendo convidada para o Ministério de Minas e Energia por sua experiência na área.

Com a crise do mensalão e a derrocada do então todo poderoso José Dirceu, Dilma foi nomeada por Lula para a pasta mais próxima do gabinete presidencial, a Casa Civil. Pela proximidade, Dilma tornou-se - por sua competência técnica e operacional - a opção mais viável para a sucessão de Lula. Com a escolha pessoal do presidente, o mandatário da República teria que resolver outras duas questões: tornar Dilma conhecida, simpática e competitiva. A outra, dobrar a resistência dos “companheiros” a Dilma. A segunda questão seria a mais fácil de resolver, como de fato ocorreu. O Lulismo engoliu todos os petistas, da ala mais à esquerda aos mais acomodados palacianos.

A estratégia lulista estava em prática a partir daquele momento, restando ao “mágico” marketing político criar o “produto Dilma”. Os marqueteiros petistas teriam o desafio em pouco tempo, de tornar a desconhecida Dilma em uma potencial candidata a suceder o mais popular presidente da história da República brasileira, Lula. 

Assim como Lula mudou  no discurso, postura e aparência, Dilma refez o mesmo caminho que para Lula deu certo, mas que não se tem a mesma garantia com Dilma. Por quê? Simples: Lula tem bases populares, surgiu do sindicato, das massas e fala o que o povo quer ouvir. Dilma não tem histórico de luta (a exceção foi sua participação contra os governos ditatoriais no Brasil) e nem de participação nas classes menos abastardas e o principal triunfo para um candidato: carisma.

As últimas pesquisas (que dependem do direcionamento político e dos interesses de certos institutos) indicam que Dilma está bem situada nas consultas aos eleitores. A candidata petista quando não está à frente de Serra, perde dentro da margem de erro.

Conforme havia refletido antes, o clã petista quando lançou o nome de Dilma, mantinha em seus planos o caminho “B”, que consistia em caso de fracasso de Dilma, lançar candidato da base de apoio do governo Lula. E quem poderia ter sido? O preterido Ciro Gomes. Cogitou-se também, oferecer a Ciro o cargo de vice de Dilma, turbinando a candidatura da ex-ministra.

Como Dilma cresceu nas pesquisas, o PT abortou qualquer possibilidade de apoiar outra candidatura. Partiu para o embate contra a oposição, representada por Serra. Não se pode negar que Dilma tornou-se competitiva em pouco tempo, antes mesmo do prazo fixado pelos petistas.

A pergunta hoje é: se eleita, Dilma terá capacidade de governar o país? Pelo seu histórico e competência pode se esperar que sim. O maior desafio que Dilma terá será a de domar o próprio partido.

Lula sempre conseguiu manter as rédeas por conta da sua supremacia frente ao PT. Ninguém no partido tem a mesma influência de Lula, por isso fica a indagação: quem controlará as tendências mais à esquerda do partido? Dilma? Ainda é cedo para qualquer afirmação nesse sentido.

Não podemos esquecer que a candidatura de Dilma foi imposta unilateralmente por Lula à militância petista, que de início resistiu, mas se rendeu ao poder do Lulismo, que a muito tempo sobrepôs aos interesses e objetivos do PT. E quem não entender, a porta de saída estará sempre aberta.

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24

de
julho

Entrevista com Altamiro Borges, direto do blog do Zé Dirceu

Em época de eleições, a mídia através de sua atuação tem papel fundamental no processo eleitoral, assim como em diversos setores da sociedade. No Brasil, a mídia (até mais do que em outros países) tem ingerência desproporcional, produzindo uma ditadura inquestionável por muitos. Na entrevista que reproduzo aqui, na íntegra, direito do site do Zé Dirceu, Borges relata como se construiu o monopólio da informação no país, desde Getúlio Vargas até a os dias atuais. Vale a pena ler a entrevista postada abaixo.

“A mídia brasileira é o pior dos mundos”

A constatação acima é do jornalista e secretário de Comunicação do Comitê Central do PC do B, Altamiro Borges, autor de “A Ditadura da Mídia” e um dos principais pensadores sobre o papel da comunicação no país. Nesta entrevista, ele explica essa sentença e alerta para o paradoxo vivido atualmente pela imprensa brasileira: ao mesmo tempo em que nunca teve tanto poder, ela sofre hoje um processo de perda de credibilidade e de fragilidade frente às novas tecnologias. Para Altamiro, a transformação necessária à imprensa brasileira começa por uma questão central: direito de resposta. “A lei de imprensa devia garantir o que está na Constituição, que fala de presunção da inocência. Mas, a mídia brasileira trabalha é com a presunção de culpa”, afirma. Ele defende que caminhemos no sentido de garantir a pluralidade e diversidade na imprensa.

As relações entre comunicação e poder econômico - objeto de observações do seu livro - podem ser comprovadas, segundo o jornalista, na análise dos principais episódios da história brasileira. De Getúlio Vargas, passando pela ditadura militar e as Diretas Já, até chegar ao desmonte do Estado pelo neoliberalismo, Altamiro nos oferece um panorama histórico que mostra  o processo de concentração do poder e a formação do monopólio dos grandes grupos de mídia. Defensor da pluralidade, o jornalista também nos conta como anda a radiodifusão comunitária brasileira e aponta as dificuldades e injustiças que hoje cerceiam as rádios comunitárias no país. Sobre a Conferência Internacional de Comunicação (CONFECOM),  programada para 14 a 17 de dezembro, cita Gramsci: “é bom ser pessimista na análise e otimista na vontade da transformação”. Altamiro está satisfeito com o processo que conduz à Conferência, sobretudo pelo caráter pedagógico de que está se revestindo.  
 
[ Zé Dirceu] Como você avalia a mídia brasileira hoje sem qualquer regulamentação ou controle público? O que é necessário para se fazer respeitar princípios e direitos elementares como o de resposta e de imagem e, no mínimo, o direito ao contraditório?
 
[ Altamiro Borges ]  A mídia brasileira é o pior dos mundos. É altamente concentrada e não tem regra nenhuma. Diferentemente da Europa que tem uma grande presença da rede pública, principalmente a partir da II  Guerra mundial, aqui não tem. Os únicos presidentes que tentaram foram o Getúlio [Vargas] com a Rádio Nacional - por isso apanhou um bocado - e agora, no segundo mandato do presidente Lula, a construção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Mas, a Rádio Nacional que chegou a ser uma rádio potente, 5ª em audiência no mundo, não conseguiu prosperar.
 
Então, a mídia brasileira não tem concorrência no setor público. Ela é basicamente privada e totalmente desregulamentada. Nos Estados e na Europa, eles têm uma regulamentação que dificulta, por exemplo, a propriedade cruzada. No Brasil, isso não existe. Uma mesma família é dona de TV, rádio, revista, internet, editora etc. Se a mídia por si só nunca terá neutralidade, aqui ela vai ter esse problema. Além da ausência da rede pública e de qualquer regulamentação, ela tem um processo de concentração muito violento. Há algum tempo falava-se em nove famílias que dominavam a mídia brasileira. Hoje, não são nem mais nove, são cinco famílias, e algumas em processo de falência.
 
Portanto, temos uma mídia altamente concentrada e sem regra nenhuma. Quanto à questão da lei de imprensa, sempre a criticamos porque era do regime militar. Agora, tirar a lei de imprensa para ficar libertinagem de imprensa é um extremo que não podia ocorrer. Você não ter garantido o direito de resposta é uma aberração. E hoje o poder dela é maior, mas paradoxalmente mais vulnerável. A mídia sempre se comportou dessa forma. É só você pegar a história da imprensa brasileira, principalmente de meados do século passado para cá. Por exemplo, ver a postura da imprensa no governo Getúlio Vargas. E hoje o poder dela é maior, mas paradoxalmente mais vulnerável.


Getúlio chegava a dizer que a burguesia brasileira era muito burra, porque ele a estava fazendo ceder os anéis para não perder tudo - na questão do salário mínimo - e a imprensa na época batendo. O discurso do Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa, contra a candidatura do Getúlio nos anos 50 era “não pode ser candidato, se for não pode ser eleito; se for eleito, não pode tomar posse; e se tomar posse não pode governar, a gente derruba”. É isso a mídia brasileira. Com essa expressão, Lacerda a sintetizou.

É só ver o papel da mídia no golpe de 64. A Folha de S. Paulo na minha opinião deu um tiro no pé ao usar a expressão “ditabranda” (em relação à ditadura). A resposta da ministra Dilma Rousseff foi muito precisa: “só se foi ditabranda pra vocês, para mim foi didatura”. Na verdade, com exceção do (jornal) Última Hora, toda a imprensa pediu o golpe e comemorou. Depois, alguns engoliram o próprio veneno. Mas ela teve esse papel no golpe, depois na retomada das lutas grevistas. É impressionante como foi uma mídia que procurou e continua a procurar até hoje, criminalizar qualquer tipo de luta social. Pega o papel da mídia nas campanhas da Diretas, foi vergonhoso. Nesse caso, a exceção foi a Folha de S.Paulo que percebeu uma mudança de correlação de forças e apostou numa outra alternativa. Agora, a Rede Globo escondendo o Comício das Diretas em São Paulo… Há um belíssimo estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) sobre o papel da mídia na Constituinte. É impressionante. Foi contra todas as bandeiras de interesse dos trabalhadores, de defesa da nação e pela soberania. Então, na minha opinião, é uma mídia que reúne o que há de pior. Lógico que tem exceções. Com isso não estou querendo dizer que a produção de conteúdo, como um todo, seja uma porcaria. Pelo contrário. Há coisas boas. A teledramaturgia no país é muito respeitada, bem produzida. Você tem bom jornalismo ainda. Eu tive agora a alegria de participar da comissão julgadora do Prêmio Vladimir Herzog na categoria jornais. Fiquei impressionado com a riqueza do material. Você tem bom jornalismo sendo produzido no Brasil. Com isso, ao falar que reúne o que há de pior, não estou querendo negar tudo. Há coisas muito boas, mas no geral ela tem essas duas grandes marcas: a de uma concentração pior do que todos os lugares do mundo, totalmente desregulada; e uma capacidade de manipulação muito alta.
  
[ Zé Dirceu] O que vc considera o básico numa Lei de Imprensa para garantir democracia e o mínimo de igualdade da informação?
 
[ Altamiro Borges ]  Começa por uma questão central: direito de resposta. A lei de imprensa devia garantir o que está na Constituição que fala de presunção da inocência. Hoje, a mídia brasileira trabalha é com a presunção de culpa. Ela primeiro aniquila a pessoa e, depois, se tiver algum reparo a fazer põe uma notinha fazendo o reparo. Então é garantir a Constituição brasileira que fala de presunção da inocência. Nós devíamos caminhar para mecanismos de garantia da pluralidade e diversidade na imprensa. O presidente da Bolívia, Evo Morales acabou de aprovar um projeto que garante ao jornalista a questão de consciência, a chamada cláusula de consciência - que na Europa já existe - em que ele tem direito de dar a sua opinião. Muitas vezes, ele faz uma boa matéria. Perseu Abramo falava que o problema não está em fazer uma boa matéria, mas nos padrões de manipulação da edição quando você oculta ou realça de acordo com os seus interesses, e o jornalista fica vendido. Então, a cláusula de consciência, nesse caso da Bolívia, está aprovada. O jornalista e o movimento social têm uma coluna no jornal e três minutos na TV para dar a sua opinião. Isso é garantir pluralidade e diversidade mínima. Essas três questões: direito de resposta, presunção da inocência e espaço para o contraditório seriam questões centrais numa lei de imprensa.
 
[ Zé Dirceu] O governo Lula adotou medidas como a criação da TV pública e convocação da Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM). Você está de acordo com essas medidas? O que mais seria necessário para avançar no sentido da democratização da informação?

[ Altamiro Borges ]  Eu tenho uma avaliação crítica do governo Lula em relação à comunicação. Concordo, nesse sentido, com o prof. Bernardo Kucinski em alguns pontos. No primeiro mandato, o governo Lula foi muito tímido em relação à comunicação. Foi um misto de ilusão com um certo pragmatismo.

[ Zé Dirceu] Fora o recuo em relação ao Conselho Federal de Jornalismo e a Agência Nacional de Cinema e Audiovisual (ANCINAV).

[ Altamiro Borges ]  Exato. O Conselho Federal de Jornalismo nem era uma proposta do governo, mas da Federação Nacional dos Jornalistas.

[ Zé Dirceu] Nas duas medidas não havia nada quanto a restringir o direito de informação da imprensa, mas ela transformou as duas propostas em censura…

[ Altamiro Borges ]  Na ANCINAV foi a mesma coisa. Não restringia nada na produção. Então, no primeiro mandato… Também não achei legal Lula ter sido eleito e no dia seguinte já dar uma entrevista exclusiva para o Pedro Bial e estar do lado da Fátima Bernardes e do William Bonner, no Jornal Nacional. Foi uma sinalização, no meu entender, que não precisava. Mas está feito. O governo chegou a apresentar algumas idéias e recuou rapidamente. E acho que cedeu em várias coisas. O tal do padrão digital japonês, por exemplo. Nós estávamos fazendo um processo de produção própria. A Universidade do Rio Grande do Sul estava produzindo o nosso padrão digital. Então, o comportamento no primeiro mandato não foi legal. Mesmo a Radiobras, tenho a impressão que ela reproduz exatamente o mesmo tipo de cobertura que a mídia comercial realizava, um negócio terrível.
 
[ Zé Dirceu] Ontem eu vi no Jornal Nacional o noticiário sobre a queda de vigas de um viaduto do rodoanel. Eles não falam nem em governo do Estado de S. Paulo, nem em PSDB. Não falam José Serra. É só Rodoanel em São Paulo. Não falam o governo.

[ Altamiro Borges ]  Imagine se isso tivesse ocorrido numa administração do PT, do PSB, do PTD, do setor do PMDB aliado ao governo… Uma das coisas mais impressionantes de como a mídia manipula - não temos que nos meter na vida pessoal de ninguém - foi o escarcéu que fizeram com a Marta Suplicy em São Paulo quando ela se separou.  Ou o que fizeram com o Lula, no caso da Lurian, que foi uma determinante naquela batalha eleitoral (1989). E agora, o tal Fernando Henrique, o Fracassando Cardoso, reconhece que tem um filho (fora do casamento) que todo mundo sabia, a (revista) Caros Amigos já tinha dado… Eu acho que o primeiro governo Lula foi tímido em relação à Comunicação. Algumas coisas tiveram a ver com governabilidade, não tem jeito. Quem está fora faz mais críticas do que quem está lá vivenciando. Foi feito um pacto público com o setor financeiro para poder governar, a famosa Carta ao Povo Brasileiro. E foi feito um pacto, que me parece não público, com a mídia, principalmente com esse grupo que hoje monopoliza a mídia brasileira, a família Marinho. Então, foi muito limitado, ruim o primeiro mandato, na área de comunicação.
Já o segundo mandato deu boas sinalizações, como as que você mencionou, a CONFECOM e a TV pública. A constituição da Empresa Brasi de Comunicação é muito positiva. Está começando, ainda tem um problema seríssimo de recursos. A TV Brasil teria que ter fomento porque não dá para você concorrer com R$ 350 milhões com R$ 6 bilhões, da Globo. Tem problemas ainda de gestão, o movimento social não se sente participando da EBC. Em outras TVs públicas, de outros países, o movimento social tem uma presença maior, mas eu acho que a EBC tem um papel muito positivo - e que a gente nem está percebendo direito - que é o papel estruturante da rede pública no Brasil. Tenho acompanhado as belíssimas experiências desenvolvida nas TVs Educativas do Pará, de Sergipe, da Bahia. Você vê que há um papel estruturante de apoio da TV pública. Isso você vai sentir daqui a pouco, não adianta muita pressa. Então a iniciativa da EBC é muito boa. Não é pra menos que a FSP pediu em recente editorial para fecharmos a EBC, a TV Brasil.

Outra atitude muito positiva foi a convocação da CONFECOM. O governo Lula mostrou coragem. Você tem 47 conferências temáticas que o governo Lula realizou em todo o país.  Mobilizou-se 4 milhões de pessoas nesses 47 eventos temáticos. Não ter uma conferência de comunicação não seria uma boa sinalização. Portanto, a CONFECOM é outro dado de mudança de comportamento. E você vê, eles (os donos da mídia) não estão gostando da CONFECOM. Não é pra menos que o governo monta uma comissão organizadora que tem oito entidades empresariais e seis se retiram. Seis das principais, entre as quais a entidade que representa a Folha, o Estadão, o Globo que é a Associação Nacional de Jornais (ANJ), Retirou-se, também, a Associação Brasileira das Emissoras de rádio e TV, a ABERT, que representa a Rede Globo. O que, inclusive, para eles deve ser uma coisa terrível porque cadê o discurso da liberdade de expressão, da democracia que eles fazem? Isso é uma desmoralização total.

Na verdade, o que eles pregam não é liberdade de expressão, muito menos de imprensa. O que pregam é liberdade de empresa, de monopólios. Eles se acham acima do ser humano comum. Fogem do debate, tentam sabotar a CONFECOM. Aqui em São Paulo, por exemplo, contam com ajuda do governador (José) Serra que nem se dignou convocar a conferência estadual. Não vai ter Conferência de Comunicação convocada pelo governo e a Assembléia Legislativa está fazendo de tudo para sabotar essa conferência estadual também. Há um outro lado positivo também, a revisão dos critérios de publicidade oficial. Não é, ainda, a revisão ideal. Nós devíamos caminhar para um exemplo que já existe nos países europeus. Na publicidade oficial tem a questão do capitalismo onde prevalece o critério mercadológico da audiência e da tiragem. Mas não pode prevalecer apenas esse critério senão o dinheiro é para os mesmos sempre. Então, você tem que seguir um outro critério que estimula a pluralidade e a diversidade. Várias entidades estão defendendo para a CONFECOM que se fixe na publicidade oficial 20% para estímulo da pluralidade e diversidade para fortalecer, por exemplo, portais progressistas tipo agência Carta Maior, Revista Fórum, revista Caros Amigos e por aí vai.

[ Zé Dirceu] Houve também a mudança na distribuição geográfica.

[ Altamiro Borges ]  Esse foi um dado importantíssimo. É o que a Folha chamou pejorativamente de “Bolsa Mídia”, como se fosse uma forma de corromper os jornais e TVs. Então, na minha opinião, somando, as medidas positivas do governo Lula na área de comunicação são a EBC, CONFECOM e publicidade mais regionalizada.

[ Zé Dirceu] Como você está avaliando até agora a CONFECOM?

[ Altamiro Borges ]  [Antônio] Gramsci dizia que era bom ser pessimista na análise e otimista na vontade da transformação. Eu estou muito satisfeito com o processo da CONFECOM. Primeiro, pelo seu papel pedagógico. Há três semanas houve uma bateria de conferências municipais. Aqui em São Paulo mesmo, foram umas dez ou doze. No Brasil inteiro, cerca de 15 mil pessoas se mobilizaram para discutir comunicação. Na Conferência da Bahia, 400 e poucos inscritos, em Minas idem, na capital paulista, 250 inscritos. Por mim, se terminasse aqui seria até bom. A CONFECOM já cumpriu o seu papel pedagógico de envolver mais gente debatendo comunicação. Até hoje nesse setor, algumas entidades tomaram a dianteira e tiveram papel importantíssimo, como o Fórum Nacional de Democratização da Comunicação (FNDC), o boletim Intervozes que tem dado belas contribuições, a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (ABRAÇO),  a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), a FITERT dos radialistas, o Conselho de Psicologia… Mas é uma coisa muito pequena. São entidades que tiveram a visão de que a comunicação hoje é estratégica, tem centralidade na luta política. É ainda um grupo muito reduzido. A CONFECOM escancarou esse processo. Hoje, há muita gente debatendo. Na Conferência da Bahia, por exemplo, estavam lá os índios. As mulheres estão dando um show. Em todas as conferências estaduais e municipais mais da metade dos participantes é de mulheres porque elas sentem muito na pele a forma como a mulher é tratada na mídia.

Então, a CONFECOM já cumpriu esse papel pedagógico. Acredito que pós-conferência estaremos num outro patamar. Sairemos com maior capacidade de organização. Ninguém participa da CONFECOM e volta para casa simplesmente. Junto às entidades que já desenvolvem esse trabalho, nós vamos agregar… Tivemos uma reunião das centrais sindicais aqui em São Paulo que foi muito importante, as seis centrais discutindo, tirando documento de 10 pontos para uma plataforma unitária. Então, dará mais organicidade à luta pela democratização da comunicação. E por fim, aí sim, tem uma polêmica grande: muita gente diz que a CONFECOM não vai resolver nada. Eu acho que podemos ter vitórias pontuais, sinalizações. Primeiro porque o empresariado está dividido. Há um setor do empresariado que percebe que não dá para continuarmos com esse poder de monopólio de alguns grupos. E tem sugestões para dar, contribuições, por exemplo, na área de distribuição de TV paga. Segundo, o governo tem dado sinalizações boas. Estou surpreso com as últimas falas do presidente Lula sobre a mídia. Ele é muito sagaz. Ontem mesmo, provocando o Kennedy (entrevista que o presidente deu ao “É Notícia”, programa do jornalista Kennedy Alencar na RedeTV!) para ver se ele entrava na CONFECOM, ele disse:  “nós vamos fazer a Conferência de Comunicação. Não estou querendo colocar ninguém contra a imprensa, mas a imprensa tem que perceber que não dá para continuar do jeito que está”. Eu acho que o governo tem dado sinalizações muito positivas.

[ Zé Dirceu] Em relação à radiodifusão comunitária, como você vê esse processo hoje?

[ Altamiro Borges ]  Está terrível. A postura diante da radiodifusão comunitária é muito ruim, é de criminalização. Você tem 8 mil radiodifusores comunitários processados. O (prefeito paulistano Gilberto) Kassab  (DEM-PSDB) outro dia fez uma festa aqui em São Paulo passando o rolo compressor em cima de transmissores de rádiodifusão comunitárias. A ANATEL continua torrando o saco das rádios comunitárias naquelas peruinhas. Já não chega a Polícia Federal (PF) - que tem feito trabalhos excelentes em outras áreas - ter que cumprir esse papel de prender e pegar equipamentos? Tem tanto bandido de colarinho branco por aí, e a PF tem que ficar enchendo as paciências de quem está fazendo rádio para a comunidade… Nessa questão da radiodifusão comunitária a posição hoje é muito ruim. Tem mais apreensão hoje das rádios comunitárias do que havia nos governos anteriores. A média é de uma por dia.

[ Zé Dirceu] Rádios piratas ou comunitárias? Quais estão fechando?

[ Altamiro Borges ]  Fecharam agora rádios comunitárias. Qual o problema que você tem na rádio comunitária? Primeiro é que o processo de outorga é muito lento - a não ser que o cara tenha algum esquema com quem manda.  Há rádio comunitária que estão há sete anos, 14 anos pedindo outorga e não conseguem.

[ Zé Dirceu] É uma licença precária?

[ Altamiro Borges ]  Uma licença precária. A rádio comunitária é  uma comunidade que está querendo fazer o seu trabalho. Veja um caso: há uma rádio comunitária feita por dois deficientes visuais destinada a ajudar esse setor. Eles não conseguiram outorga! Acabou de falecer um deles. Veja a Rádio Favela de Belo Horizonte! Fazem um trabalho belíssimo e já ganharam dois prêmios na ONU. Tem um filme a respeito inclusive. Conversa com o Misael [Avelino dos Santos], responsável pela emissora, ele te mostra o pulso que tem as marcas de algema. Ele foi preso vários vezes, fecharam a rádio várias vezes. Por que isso ocorre? Porque a outorga não sai. A rádio fica clandestina e aí vem a perseguição. Na minha opinião, tem que primeiro acabar com o processo de criminalização das rádios comunitárias. Segundo, tem que fixar regras para evitar que elas sejam contaminadas -  porque isso já existe. O professor Venício de Lima já demonstra isso. Cerca de 10% é de igreja. Outro percentual alto é vinculado a políticos fisiológicos. E uma parcela das comunitárias é comercial. Hoje, com outorga são 3 mil e há aproximadamente 14 mil em processo enfrentando essa burocracia da ANATEL. Um consenso em todas as CONFECOMs - municipais e estaduais - é que não dá mais para continuar nesse processo de criminalização. Também é preciso estabelecer regras que impeçam que as rádios comunitárias se desconfigurem, É preciso otimizar o processo de outorga a partir e regular, também, porque você não pode ter dez rádios comunitárias no mesmo local. Mas a campanha que fazem contra é de um exagero tremendo. Dizem que temos que tomar cuidado com as rádios piratas porque irá ocorrer o que acontece na avenida Paulista - impedir a recepção e sintonização de emissoras de rádio. Mas, na av. Paulista não tem rádio pirata. Tem convencional. Então, já que querem criticar, que usem um exemplo correto.

Óbvio que tem que ter regulação. Mas, temos que tomar cuidado com o exagero. E tem aquela coisa de que “rádio pirata derruba avião”. Se rádio pirata derrubasse avião, Osama Bin Laden teria utilizado outra tática nos Estados Unidos. Isso é conversa fiada. A potência que tem uma rádio pirata, de 25 watts, derruba avião? Temos que parar com esse processo de criminalização e evitar a utilização errada, seja para que fins, de rádio comunitária. E acelerar o processo de outorga. E mais do que isso, devíamos fazer o que o Uruguai está fazendo. O professor [Denis de] Moraes tem um livro belíssimo, “A Batalha da Mídia” no qual descreve isso, essa legislação e processo uruguaios com a radiodifusão comunitária. No Uruguai é um primor, porque além de legalizar eles incentivam, criam redes, facilitam a aparelhagem, barateiam, promovem cursos para aperfeiçoamento porque sem capacitação será uma rádio precária. Se nós aplicássemos aqui o que tem sido feito em termos de legislação e de política pública de radiodifusão comunitária em outros países… Essas rádios cumprem um papel muito bonito. Você dá mais voz, para mais gente poder falar. A rádio comunitária é a voz de quem não tem voz. Isso cria um laço na comunidade. E é de uma criatividade enorme. Nesse ponto a gente pode avançar na CONFECOM. Eu acho muito difícil sair da Conferência Nacional deixando esse debate da rádio comunitária do jeito que é hoje, com a ANATEL e a PF perseguindo as pessoas.
[ Zé Dirceu] Como você vê a Internet hoje?
 
[ Altamiro Borges ]  É a segunda coisa que eu acho que a gente avança na CONFECOM. Vai se criando um consenso quanto à necessidade do processo de inclusão digital. Até por conta das contradições no próprio setor empresarial. A Internet é um barato. É a tal da dialética. Da mesma forma que houve a aceleração desse processo de rotação tecnológica, de quem tem maior poder econômico, tem mais força para fomentar; por outro lado, essas novas tecnologias abrem brechas. A Internet cria uma brecha comparável ao que foi o rádio na década de 20. O rádio também criou uma brecha na comunicação. A Internet está criando uma brecha maior, que nos leva a situações interessantíssimas. Você hoje tem uma crise violenta da mídia impressa tradicional - saber que o The New York Times teve que penhorar o seu prédio é um barato. Tem muitos jornais fechando ou indo para a Internet. Pega aqui em São Paulo. A Folha na década de 80 tirava 1 milhão e pouco de exemplares de sua edição dominical. Hoje, ela tira 290 mil exemplares. Isso é dado oficial. A queda foi violentíssima. Está havendo uma migração. 

 [ Zé Dirceu] No seu mais recente livro, “A Ditadura da Mídia”, você fala muito do Getúlio até agora. Por quê? Como se deu o processo de concentração e monopolização da mídia e da informação no Brasil? O que tem no passado que podemos aprender nesse sentido? Foi o poder público que permitiu esse processo de concentração? Hoje a mídia, realmente está vulnerável? Podemos falar que a mídia é um partido político?A mídia nunca teve tanto poder, porque hoje ela é diferente do que era a imprensa na década de 40, 50, 60, em que ainda era composta de grupos familiares frágeis. Mesmo O Globo era um jornal… Ele passa a ser o que é com a ditadura. Naquele tempo, eram grupos ainda familiares e frágeis. Hoje são grandes conglomerados com muitos interesses envolvidos. Não é mais só informação - é, também, mas tem entretenimento, cultura etc. Não é mais só uma plataforma, é o jornal, a revista, a rádio, a TV, a Internet, a produtora, a distribuidora.

[ Altamiro Borges ] 

[ Zé Dirceu] Eles queriam ser donos das telecomunicações e agora não querem que as teles entrem na terra, na área deles. Quebraram por causa disso.É, apostaram na privatização, no desmonte do sistema para eles abocanharem, mas aí dançaram. Mas a mídia nunca foi tão poderosa. O prof. Denis de Moraes tem um estudo que mostra isso. Hoje você tem nove megaconglomerados no mundo - Disney, Sony etc. Depois 40, numa segunda lista, em que se sobressaem os grupos Clarin, Cisneros, Globo, Televisa/Azteca. Esse é o mundo. Mundo da mídia, com muito poder, diferente do que foi no passado. Isso tem a ver, no meu entender, com a lógica do próprio sistema que é de concentração, com a desregulamentação e também com a revolução tecnológica que exige investimento. Nesse sentido, dá um grande poder econômico e ao mesmo tempo, um grande poder ideológico. Quem primeiro trabalhou essa coisa da imprensa como partido do capital foi um sujeito chamado Gramsci que tem uma discussão mais atual hoje do que quando ele escreveu na década de 20. Ele disse que quando as instituições do sistema entram em crise, a imprensa ocupa o papel do partido do capital. E isso é cada vez mais forte. Você saber que o Bush contou 930 mentiras para justificar a invasão do Iraque e que a mídia repercutiu acriticamente isso! Só o The New York Times fez uma criticazinha pequeninha sobre isso. É uma vergonha. Veja a mídia aqui, como ela está tratando o golpe de Honduras… É governo “interino”, governo “de fato”. Que governo “de fato”?

[ Altamiro Borges ] 

Esse poder hoje é mais vulnerável. O que explica essa vulnerabilidade? Primeiro é pela própria revolução da tecnologia. A Internet está fazendo falir jornais tradicionais. E está ocorrendo um fenômeno de migração da TV para a Internet, sobretudo com a juventude. O paradoxo é esse. A tecnologia abre essa brecha. O editor do site Rebelión , Pascual Serrano, está insistindo muito numa tese de perda de credibilidade. A mídia está perdendo a credibilidade. Há muita desconfiança, hoje, em relação à mídia. Esse negócio que o Lula fala, desses que se acham formadores de opinião, é verdade. Eles não formam mais opinião nenhuma. Então, há perda de credibilidade. E há outro fator que explica esse paradoxo: em função de mudanças políticas, principalmente com essa guinada a esquerda na América Latina há menos relação carnal com os Estados Unidos, mais postura de integração.

[ Zé Dirceu] No caso do Brasil, o modelo monopólico da Globo termina por atrair o capital estrangeiro. Ela não se associou a esse capital, ela defendeu e estimulou a privatização selvagem, mas não na área dela. Só que agora vê que não tem como impedir. Essa é a maior fragilidade do Brasil. Ou eles se associam… Porque de uma maneira ou de outra (o capital estrangeiro) eles vão chegar. Não há como impedir isso, porque na hora em que tiver cota nacional, não tem explicação nenhuma para impedir o capital estrangeiro de entrar.

[ Altamiro Borges ]  São essas mudanças na América Latina, políticas, uma guinada mais à esquerda, que colocou a mídia no banco dos réus pelo papel que ela teve na época da ditadura… O Clarín, o El Mercúrio… Ela também foi colocada no banco dos réus por ter sido a principal alavanca ideológica do projeto neoliberal. A grande imprensa justificou todo o desmonte do Estado. Apresentou o setor público como reduto de marajás e por aí vai. E, também, porque ela joga contra esses governos de esquerda. Na Argentina, o Clarín estimulou esse locaute do agronegócio. Teve papel à direta semelhante na Bolívia. O Emir Sader tem uma pesquisa que mostra que 83% das notícias no ano de eleição, nas rádios TVs e jornais, foram contra o (presidente) Evo Morales. E o povo votou nele. Então essa mídia está no banco dos réus e esses governos começam a efetuar mudanças muito interessantes. Isso fragiliza esse poder ditadorial midiático em países como Uruguai, Argentina, Venezuela, Bolívia (que agora tem um jornal para disputar hegemonia, constituiu uma rede pública inclusive). Há mudanças muito interessantes na Nicarágua. Então, são esses elementos que explicam a fragilidade. A mídia é poderosa e ao mesmo tempo está fragilizada. Agora, quanto ao poder político é exatamente isso que Gramsci já alertava.

[ Zé Dirceu] A mídia hoje organiza a agenda da oposição, cobra inclusive. Há articulista no Estadão, por exemplo, escrevendo artigo para dizer que nós estamos querendo que o Aécio não seja vice do Serra.

[ Altamiro Borges ]  Foi a Miriam Leitão que escreveu semana passada que não existia oposição no Brasil? Que a única oposição era a mídia? Se você pegar a CPI da Petrobrás, ela é uma lição. Nem o DEM, nem o PSDB tem interesse sobre isso.

[ Zé Dirceu] Eles fizeram a encenação, mas queriam que acabasse logo.

[ Altamiro Borges ]  Pelo peso da Petrobras, nem essa turma topava a CPI. Luis Nassif está falando que essa CPI foi o mensalão da mídia - ela forçou a CPI. O senador Agripino Maia (DEM-RN) iria querer a CPI na Petrobrás? (Um filho do senador teria empresa fornecedora de combustível de aviação, com negócios com a Petrobras). Constituíram a CPI, aí a mídia tirou o time. A ponto do senador Agripino Maia ter dito: “a imprensa nos abandonou na CPI”.

[ Zé Dirceu] E na sua avaliação, é boa para o país a aprovação do PL-29 (o projeto ainda se encontra em tramitação)?

[ Altamiro Borges ]  O PL-29 está meio morto, Zé. Ele foi muito desfigurado. Marcos Dantas, professor do Rio, diz que apoiou o PL-29, o projeto inicial que teve como relator o deputado Jorge Bittar (PT-RJ) porque permitiria por ordem nessa caso da TV a cabo, produção nacional, cotas. O projeto original permitiria um regramento que, na área de distribuição, significaria um baque no monopólio. Só que o projeto inicial foi desfigurado. Acho que hoje ele está ruim. Essa semana mesmo já se fala em retirar cotas da PL-29.

[ Zé Dirceu] A aprovação original permitia acabar com a exigência de 30% de participação máxima do capital estrangeiro na mídia por conta das cotas. O único argumento que eles tem é a desnacionalização.

[ Altamiro Borges ]  Temos que tomar cuidado com duas arapucas: uma a de que eles defendem a liberdade de expressão e nós somos contra. Mesmo o termo controle social não é um bom termo reforça o truque deles: “vocês são contra a liberdade de expressão”.
[ Zé Dirceu] Melhor que o termo controle social é usar regulação. É melhor falar o que é concretamente, direito de resposta, respeito à honra e à imagem que está na Constituição, direito de resposta e ao contraditório e democratização. E não pode ser um monopólio. Hoje é um cartel.

[ Zé Dirceu] Precisa ter um órgão regulador. Por que não pode ter um Conselho Federal de Jornalista? Hoje, o jornalista faz o que quer.

[ Altamiro Borges ]
E tem que ter participação da sociedade. Precisa haver o Conselho Nacional de Comunicação, conselhos estaduais etc.

[ Zé Dirceu] Precisa ter um órgão regulador. Por que não pode ter um Conselho Federal de Jornalista? Hoje, o jornalista faz o que quer.  

[ Altamiro Borges ] Sem regulação, ele se sente acima do Estado de Direito.

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22

de
julho

Entre a expectativa e a desilusão: balanço do governo Ana Júlia. Parte II.

Cont. 

Na primeira parte deste balanço, atentei minhas análises mais às questões relacionadas ao território e a ações estatais para com este. Por uma questão de formação acadêmica, fui levado a essas temáticas. 

Produzir balanço de um governo não é tarefa fácil. Poucos se atrevem a tal exercício. O maior receio, talvez, seja a de não conseguir mensurar suas próprias análises, ou se deixar levar por paixões ideológicas que possam comprometer uma análise mais apurada e imparcial dos fatos.

No mês de janeiro de 2007, iniciava o primeiro governo de esquerda da história do Pará com a vitória de Ana Júlia. Os desafios eram muitos. Em todas as áreas havia grandes problemas, bem diferente do cenário fictício criado pela ampla propaganda do governo que escamoteava a triste realidade. Essa questão não retira responsabilidade e nem esconde fracassos e erros da atual gestão.

Os acertos:

  1. Implementar ações que visem a diminuição das desigualdades regionais no estado do Pará. Dentre elas: a criação da Seir (Secretaria de Integração Regional); o PTP (Planejamento Territorial Participativo); NavegaPará - maior programa de inclusão digital do Brasil;
  2. Criação da Sedect, a secretaria de ciência e tecnologia, que até então não existia especificamente, dividia ações com outras áreas. Com a criação da Fapespa (Fundação de Pesquisa do Estado do Pará), dinamizando a pesquisa no Pará;
  3. Programas de regularização fundiária em Belém e nos municípios do interior. O ZEE em 122 municípios paraenses, além regularização fundiária, dinamiza a economia dessas municipalidades;
  4. A implantação em Belém do projeto Ação Metrópole, almejado por décadas pela população que visa à reestruturação do trânsito da região metropolitana de Belém;
  5. A reestruturação do Idesp (Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará) que foi fechado nas gestões tucanas no Pará. Com o ressurgimento do Idesp cria-se melhor possibilidade de analisar as demandas e orientar as políticas públicas no Pará;
  6. Melhor relacionamento entre governo e prefeituras através da atuação da Seir;
  7. Reestruturação institucional com a criação da Secretaria de Governo (Segov), atuando para um melhor relacionamento entre as diversas secretarias de governo;
  8. Reestruturação da Segurança Pública no Pará, através da realização de concursos públicos para a área, que na Era Tucana (12 anos) não foram realizados, criando déficit de mais sete mil homens na Polícia Militar. Aparelhamento das Polícias Civil e Militar, com aquisição de viaturas, motos, coletes à prova de balas e armamentos;
  9. Criação da Sedes (Secretaria de Desenvolvimento Social) para atuar especificamente na área social no Pará, com resultados reconhecidos;
  10. A reestruturação do Iterpa (Instituto de Terras do Pará), da Emater e a criação do Ideflor;
  11. Reajustes salariais aos servidores públicos acima da inflação, garantindo ganho real;
  12. Implantação dos arranjos que possam garantir ao estado do Pará mudança em seu modelo de desenvolvimento, através do fomento da verticalização dos principais produtos da pauta de exportação;
  13. Na educação, reforma de centenas de escolas e a criação do PCCR (Plano de Cargo, Carreira e Remuneração) reivindicação histórica dos servidores da educação pública do estado do Pará;
  14. Ações estruturantes em parceria com o governo Lula que estavam restritas as pretensões: asfaltamento da BR-163 (Santarém-Cuiabá), conclusão das Eclusas de Tucuruí, duplicação da capacidade do Porto de Vila do Conde em Barcarena, a construção da Alpa (Aços e Laminados do Pará), a primeira siderúrgica construída pela Vale no Pará, que transformará o minério de ferro de Carajás em aço e seus derivados;

O que deu errado:

  1. O governo Ana Júlia repetiu o mesmo erro cometido pelo governo Lula quando este chegou ao poder em 2003: a mistura entre partido e governo. O partido, neste caso o PT, tenta ou toma a rédea das ações do governo, gerando crises entre as tendências do partido, como de fato aconteceu do início até dos dias atuais;
  2. A falta de cumprimento de acordos firmados com partido da base de apoio do governo. Essa foi à tônica do atual governo. O descumprimento de acordos políticos sempre gerou fissuras do PT com os partidos apoiadores;
  3. A falta de continuidade de pessoas e projetos. Na educação, a Seduc, trocou de secretário quatro vezes. Cada um que assumia, mudava os rumos e o planejamento da pasta. Na saúde não foi diferente. A atual secretária, Silvia Cumaru é a quarta a assumir a Sespa. Em outras secretarias e autarquias houve diversas mudanças. Por mais que o governo afirme que o troca-troca de cadeiras seja normal, os acontecimentos (principalmente pela forma de como ocorreram) demonstram o contrário, que houve crises dentro do governo;
  4. Falta de transparência de algumas ações do governo, como no caso do Kit-escolares e da dispensa de processos licitatórios;
  5. A supremacia de apenas uma tendência frente às outras, desequilibrando a relação de forças dentro do partido e conseqüentemente no governo;
  6. A falta de democratização nas decisões e ações do governo, concentradas no chamado “núcleo duro”, composto pela governadora e um pequeno grupo;
  7. Falta de maior gerenciamento no fisco, área de muita dor de cabeça do atual governo. Além de crise de relacionamento com os servidores da pasta, faltou competência para melhorar e aumentar a arrecadação;
  8. A publicidade e o marketing do atual governo sempre foi um fiasco. Nos últimos meses melhorou, mas ainda está longe de elogios. Por essa debilidade, os resultados nas pesquisas de avaliação do governo confirmam;
  9. O alto grau de endividamento que comprometerá futuramente as contas do estado do Pará. 

18

de
julho

Entre a expectativa e a desilusão: balanço do governo Ana Júlia. Parte I.

Ao se tratar de política, podemos criar sentimentos e emoções antagônicas. Para uns, um novo governo desencadeia amplo sentimento de esperança e expectativa. Para outros, pode ser produto de desilusão e falsa esperança. Dessa forma não foi diferente com a chegada da petista Ana Júlia ao governo do Estado do Pará em janeiro de 2007, até então o primeiro governo de esquerda na história do Pará.

A expectativa sobre o novo governo ocorreu por seu direcionamento ideológico e pela ampla demanda na área social no estado, que foi abandonada pelos governos anteriores. Na campanha para governo, o PT produziu leque de ações, de políticas públicas para implementá-las ao assumir o poder. A prioridade seria o social. O discurso, todo ele pautado no programa “Pará, terra de direitos”, que englobaria diversos programas do governo.

Na montagem da equipe de governo, depois das eleições de 2006, sinalizava sentimento de realizações que estavam por vir. Nos primeiros meses da gestão, começou as crises de relacionamento com os partidos da base, principalmente o PMDB, que até aquele momento detinha algumas secretarias de governo e certa influência política na administração, esta sempre “controlada” pelos dirigentes palacianos.

Ao assumir o governo, o PT se deparou com um cenário tenebroso no Pará. A educação estava em frangalhos. A saúde, um caso de polícia (apesar de ser tão propagada positivamente pelos tucanos). O setor de transportes deteriorado, sem as mínimas condições na maioria das rodovias estaduais. E no meu entender o maior desafio: diminuir as desigualdades regionais, que foram aprofundadas pelos governos tucanos no Pará.

Para essa questão, o Partido dos Trabalhadores em seu projeto de governo, trouxe à tona duas ações em conjunto: O PTP - Planejamento Territorial Participativo e a Seir - Secretaria de Integração Regional. O primeiro seria uma forma descentralizada de gestão das políticas públicas que, seriam produzidas em comum acordo com os anseios da sociedade, algo parecido com o Orçamento Participativo implementada pelo PT na gestão do ex-prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues.

A Seir tinha como maior objetivo um novo arranjo institucional entre o governo e prefeitos, firmando convênios entre as partes interessadas. A nova secretaria trazia também, nova proposta de regionalização do território paraense, que seria gerida por 12 regiões, as chamadas Regiões de Integração, levando em consideração novos critérios para as respectivas delimitações regionais.

Seguindo a mesma lógica de atuação do governo Ana Júlia, na campanha prometeu criar sub-governadorias, em Santarém e outra em Marabá, que ficaram esquecidas, configurando-se como mera promessa de campanha do atual governo.

Tanto o PTP como a própria atuação da Seir, não renderam os frutos esperados. O primeiro que começou bem sob a administração da professora Edilza Fontes, com a sua saída desandou e nem se ouve falar sobre o programa. A Seir sob a tutela de André Farias, perdeu fôlego e ganhou diversas cobranças nos últimos meses, sendo criticado, inclusive, por atuar conforme bandeira política em alguns municípios.

Com a chegada do PT ao poder no Pará em 2007, o debate que vinha se travando a nível federal com o próprio partido: a separação entre partido e governo no caso de um partido de esquerda. Muitos acusam que o PT não consegue manter distante o partido das ações governamentais  e vice e versa. Por conta disso, muitos observadores políticos afirmam existir um “núcleo duro”, grupo que dirige o governo e que centraliza as ações governamentais na tendência da governadora, até então a minúscula DS (Democracia Socialista) que engoliu outras tendências petistas e centralizou o poder em nas mãos dos dirigentes da tendência, produzindo crise dentro do governo e do próprio PT.

Concomitantemente as crises internas, o governo Ana Júlia foi acometido por uma grave econômica mundial, atingindo fortemente o Pará, por sua vocação exportadora. O governo tomou medidas de contenção de despesas, principalmente o de custeio da máquina, deixando o governo funcionando metade do tempo. 

A principal proposta do atual governo era a de mudar o modelo de desenvolvimento instaurado no Pará há décadas, o principal responsável pelos péssimos índices sociais existentes no Pará. A mudança de modelo econômico não se faz em pouco tempo, em apenas um governo. Os avanços foram tímidos, mas consistentes. Primeiro pela cobrança junto a Vale para a implementação da Alpa, em Marabá, siderúrgica que irá transformar o minério de ferro em aço e similares.

A questão da verticalização dos principais produtos da pauta de exportação do Pará é um caminho irrevogável, sem a possibilidade de volta, o que representaria um retrocesso e continuaria a penalizar a grande parcela da população paraense.

Continua na próxima…  

Acessem meu twitter: www.twitter.com/henriquembranco

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15

de
julho

A diminuição da pobreza e miséria no Brasil

Os principais jornais do Pará, em seus respectivos cadernos de notícias anunciaram os dados referentes a mais nova pesquisa realizada pelo Ipea (Instituto Brasileiro de Pesquisas Econômicas Aplicadas) referente à pobreza e à miséria nas regiões brasileiras.

Na referida pesquisa a taxa de pobreza absoluta caiu de 43,4% no ano de 1995 para 28,8% em 2008, último ano que os dados foram mensurados pelo instituto. A região Norte teve a segunda menor diminuição da pobreza no Brasil, reduzindo sua taxa em 8%. O Nordeste, por exemplo, reduziu a pobreza em 20% nos últimos anos, bem à frente da região Norte. O Sudeste, região mais industrializada e rica do país, conseguiu reduzir em 10% sua taxa de pobres.

A pesquisa considera pobreza absoluta, o rendimento mensal por indivíduo que ganhe até meio salário mínimo e que, pelos padrões atuais, é de 255 reais. No Brasil, até 2008, 28,8% da população brasileira tem como rendimento o referido valor.

Outro ponto interessante da pesquisa diz respeito à trajetória de queda da pobreza no país. Desde 2003, primeiro ano do governo Lula, a trajetória de queda é progressiva, ou seja, vem caindo no Brasil. Além da estabilidade econômica do governo anterior ao do PT, a questão da melhor distribuição da renda, através dos programas de transferência de renda como o Bolsa Família e o aumento no salário mínimo contribuiu para a queda da pobreza absoluta no país. O Ipea calcula que se os atuais índices de queda da pobreza continuar, em 2016 o Brasil irá superar a pobreza extrema.

Especificamente tratando sobre a situação do Estado do Pará, o referido ente federativo, assim como os demais, reduziu suas taxas de pobreza. No Pará, 44,9% da população está enquadrada economicamente na pobreza absoluta, ou seja, para cada dois paraenses, quase um, situa-se nessa estatística perversa.

A questão do Pará remonta ao seu modelo de desenvolvimento, de base extrativista, com baixo processo de verticalização da cadeia produtiva. Essa realidade permeia a economia paraense a mais de dois séculos, onde não se avançou na questão da industrialização das matérias-primas retiradas aqui.

O jornalista Lúcio Flávio Pinto se refere a essa situação com a seguinte frase: “Pará, rabo de cavalo” fazendo referência ao modelo econômico adotado no Estado, que não distribui riqueza, concentra a renda e aprofunda a pobreza gerada, desenvolvimento exógeno, ou seja, de dentro para fora.

No meu entendimento a maior virtude do governo petista no Pará, o de Ana Júlia é, sem dúvida, a discussão e implementação de um novo modelo de desenvolvimento para o Estado do Pará. Se conseguiu tornar essa pretensão uma realidade é outra discussão, que ainda pretendo abordar em outra oportunidade. O importante é a colocação em pauta da questão da necessidade em rever e mudar o modelo econômico perverso, que aprofunda as desigualdades regionais paraenses há décadas, perpetuando índices sociais vergonhosos no Pará.

O Pará tem o 13º PIB brasileiro, o quarto maior exportado do país, mas é o 21º IDH. Esse dado por si só, confirma que algo está errado, e que precisa ser mudado. Além do modelo de desenvolvimento perverso, a falta de competência de nossos governantes produziu tal cenário, aprofundado com o passar do tempo.

Se comparado a média da queda anual da pobreza no Brasil que hoje é de – 1,6%, o Pará está em pequena vantagem, pois registra – 2,2% de redução da pobreza por ano. O problema está no elevando índice dos que ganham menos de meio salário mínimo, bem acima da média nacional, o que mantém a pobreza firme em solo paraense.

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O blog comemora mais um ano de existência, o seu quarto. Nesses anos foram publicados 470 post (com este, 471), média de 10 por mês. Recebi mais de uma centena de comentários nesse período. Torno pública a felicidade em manter vivo o prazer de escrever, que realizo através do blog.

Não esperava que este veículo fosse tão longe e que completasse anos de existência, por isso, descartei seu período de validade. Espero que exista por anos, décadas. Sua existência (mesmo com o aumento progressivo da escassez de tempo) me mantém firme em exercer além da escrita, a reflexão, a provocação, minha militância política e ideologia, resguardando – sempre que possível – a imparcialidade dos fatos e acontecimentos.

No último ano, o blog saiu do anonimato. Começou a ser lido (e para alguns, a incomodar) por mais pessoas, muitas delas importantes. Durante três anos, sua abrangência se resumia a poucos, os mais próximos, mas sempre fieis leitores. Hoje, pela quantidade de acessos, a responsabilidade de quem vos escreve aumentou muito. Qualquer deslize na informação e, até mesmo na impiedosa gramática é a deixa para dezenas de críticas, algumas raivosas.

Além de professor, socialista, me apresento como blogueiro, sem cerimônias. Incorporei essa titulação. Certa vez, um amigo, me perguntou se me considerava jornalista. Respondi na hora que não (mesmo sem a obrigatoriedade do diploma). Prezo e respeito à formação acadêmica. Não sou e nem me permito ser chamado de jornalista, diferentemente de alguns que se fazem passar por tal.

Ser conhecido por blogueiro para mim já é suficiente, me sinto feliz por tal reconhecimento. Agradeço aos meus leitores por acessarem e lerem minhas reflexões. Agradeço também os comentários, as críticas, na maioria das vezes respeitosas e de muito valor para o crescimento profissional deste humilde professor.

Muito obrigado a todos.

Acessem meu twitter: http://twitter.com/henriquembranco

11

de
julho

A maldição do professor

O texto que segue abaixo me foi enviado por email por uma companheira de trabalho e leitora assídua do blog, a professora Karina Dantas. Achei muito engraçado e de bom gosto, apesar de me sentir constrangido e - de certa forma - inconformado com a abordagem do texto, pois reflete claramente a vida de milhões de professores brasileiros.

 

A Maldição do Professor

Conta a lenda que, quando Deus liberou o conhecimento sobre como ensinar os homens ,  determinou que aquele “saber” ficaria restrito a um grupo muito selecionado de sábios. Mas, neste pequeno grupo, onde todos se achavam “semi-deuses”, alguém traiu as determinações divinas…

 

Aí aconteceu o pior!

 

Deus, bravo com a traição, resolveu fazer valer alguns mandamentos:

 

1º - Não terás vida pessoal, familiar ou sentimental.

 

2º - Não verás teu filho crescer.

 

3º - Não terás feriado, fins de semana ou qualquer outro tipo de folga.

 

4º - Terás gastrite, se tiveres sorte. Se for como os demais, terás úlcera.

 

5º - A pressa será teu único amigo e as suas refeições principais serão os lanches, as pizzas, o miojo e o china in box.Neste último, exclui-se caso trabalhes no interior.

 

6º - Teus cabelos ficarão brancos antes do tempo, isto é, se te sobrarem cabelos.

 

 

 7º - Tua sanidade mental será posta em cheque antes que completes 5 anos de trabalho.

 

8º - Dormir será considerado período de folga, logo, não dormirás.

 

9º - Trabalho será teu assunto preferido, talvez o único.

 

10º - As pessoas serão divididas em 2 tipos: as que ensinam e as que não entendem. E verás graça nisso.

 

11º - A máquina de café será a tua melhor colega de trabalho, porém, a cafeína não te fará mais efeito.

 

12º - Happy Hours serão excelentes oportunidades de ter algum tipo de contato com outras pessoas loucas como você.

 

13º - Terás sonhos, com cronograma, planejamento, provas,  cadernetas, provas de recuperação e não raro, resolverás problemas de trabalho neste período de sono.

 

14º - Exibirás olheiras como troféu de guerra.

 

15º - E, o pior… inexplicavelmente gostarás de tudo isso.  

 

16º Serás chamado de PROFESSOR

8

de
julho

Podemos mais e eles querem menos

Artigo retirado na íntegra do site do Zé Dirceu.

Um espectro que rondava o Brasil finalmente se materializou. José da Móoca - o Serra de campanha, versão Paz & Amor - fez sua aparição, invadindo as telinhas, em pleno ambiente de Copa, no horário eleitoral do PSDB. Quem assistiu a performance, ou leu os comentários na imprensa, ficou sabendo que é um candidato que “veio de baixo”, “é experiente” e “é voltado ao social”. Um jornalista mais irônico chegou a comentar que Paulo Maluf acabava de ganhar um avatar, um novo “homem que faz”.

Porém, antes, durante e depois dos minutos de televisão e fama obtidos pelo personagem, não cessou a contínua barragem de opiniões que desconstroem a marquetagem. Serra se vê, hoje, às voltas com uma esquizofrenia eleitoral. Se quisermos sintetizar a moléstia, podemos dizer que experimenta o choque da vontade com a realidade.

O mote que seus gurus propuseram tem lastro no real. Dizer que “o Brasil pode mais” é um bordão de relativa eficácia para traduzir a disjuntiva “continuidade” - de tudo o que Lula significa de positivo para os eleitores - versus “mudança” - pois o tucano tem que convencer os brasileiros que o que está em curso pode e deve ser melhor, se conduzido por ele. Essa operação, no entanto, além de excessivamente sutil e complexa, tem o sério defeito de entrar em choque com os fatos.

E são fatos de duas ordens os com que Serra tem que se ver: os resultados, bem conhecidos, das gestões do PSDB e aliados, à frente de municípios, de estados e da República; e o que pregam, insistentemente, seus apoiadores mais incontidos. Sobre FHC, Yeda Crusius, Leonel Pavan, Kassab, Arruda, Cássio Cunha Lima, entre muitos outros, pouco resta a dizer. Basta prestar atenção no que ocorre ou ocorreu em seus mandatos. Já o foco no que agita a torcida serrista demanda um esforço um pouco mais concentrado.

O neoliberalismo versão tupinambá, de que o PSDB é o líder inconteste no Brasil, é muito marcado pelo que Luiz Nassif denominou, em caráter definitivo, “cabeças de planilha”. É aquele método que trouxe de volta ao pensamento econômico a escolástica medieval, em que os ritos e fórmulas se substituem ao movimento real das sociedades. No afã de defesa da acumulação de capital sem freios - e sem qualquer preocupação com as consequências disso na vida das pessoas e das nações - seu instrumento de predileção são uns tais “modelos econométricos”, que dão um falso ar de ciência ao que é mero truque acadêmico, a serviço da defesa da reprodução ampliada de capitais e às custas da ampliação dos fossos de desigualdade.

A aplicação dessas “técnicas” resulta em definições que são desastrosas para o candidato. Gastam tempo infindo e espaço enorme para propagandear que o Brasil é um país limitado: não pode crescer mais que 3,5% ao ano; não pode ter menos desempregados que 9% de sua população economicamente ativa; tem que ter juros de dois dígitos. Para eles, o Estado tem que, simultaneamente, reduzir tributação, investir mais (desde que via subsídios, renúncias fiscais, juros especiais e “oportunidades” para a iniciativa privada), reduzir suas despesas e pagar, religiosamente, os rendimentos de seus títulos vendidos à banca globalizada.

Essa é uma façanha que, mesmo eles não negam, só pode ser praticada, na ausência de um programa nacional de desenvolvimento (o que abominam), pela redução drástica do atendimento estatal à saúde, à educação, ao transporte e à aposentadoria dos brasileiros e pelo corte dos salários e do número de servidores públicos. Nem um inimigo proporia uma tática eleitoral tão fadada ao fracasso, mas os amigos de Serra querem que ele o faça. Ao ser emparedado nesse cenário, o candidato tem buscado se safar pelo método que lhe é mais espontâneo: o exacerbado exercício da vontade, o voluntarismo como estilo e prática.

É daí que surgem os factóides que atordoam até a mídia que torce, noite e dia, por ele: Aécio, o vice que foi sem nunca ter sido e que não mais será; uma convenção na Bahia, estado em que seus índices de apoio são indigentes, de frente para um ato religioso comandado por pastores de nítida preferência política alternativa; a tentação de invadir a Bolívia ou alistar-se nos regimentos do cerco ao Irã; os palanques regionais, como o do Rio de Janeiro e do Ceará, que se desmontam e montam a cada dia; os espetáculos públicos de agastamento com repórteres e assessores; um DEM que, mesmo terminal, resolve disputar despojos.

Serra é um político experiente. Sabe que ir de peito aberto contra Lula, rasgando a fantasia e se pondo “contra tudo isso que aí está”, é uma rota que diminuirá, muito, seu já minguante estoque de votos, construído a duras penas depois do que foram os oito anos de fernandato. Ao mesmo tempo, percebe que a linha de não-confronto só tem servido para dar ainda mais sustentação à idéia predominante no eleitorado que - expressa em tempos e termos de futebol - ensina que “não se mexe em time que está ganhando”. Quer prosseguir com o tema do “Brasil que pode mais”, mas oscila quando seus associados repetem o mantra do querer menos e trocar tudo.

Serra, todavia, é também um político prepotente e voluntarista. Quando a realidade, a vida, se antepõem à suas vontades e frustram seu planos cuidadosamente concebidos, o José da Móoca entra em fase de transubstanciação, dá lugar a um candidato irritadiço e desfocado, que conduz a campanha, os aliados e os apoiadores à confusão e ao medo. Estes começam a perceber que, se o Brasil pode mesmo muito mais - e que seu entorno deseja cada vez menos disso -, seu candidato pode, cada vez menos, talhar a realidade a golpes de desejo. Diria o saudoso Doutor Ulysses: há que se curvar perante Sua Majestade, o Fato. E fatos e fados, hoje, não são favoráveis ao José.

 Artur Araújo é consultor de empresas.

(artigo originalmente publicado no Página 13)

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6

de
julho

Os meios justificam os fins? Ou os fins justificam os meios?

Com atraso já costumeiro (por falta de tempo e pela demora na publicação do jornal, por conta dos inúmeros processos que seu idealizador responde na Justiça) adquirir meu exemplar quinzenal do jornal Pessoal do jornalista Lúcio Flávio Pinto, que trata sobre os acordos políticos realizados neste momento pelos partidos e por quem os dirigem.

Sob o título “Stripe-tease moral”, exemplar de número 467, correspondente a segunda quinzena do mês de junho, o jornalista analisa como estão ocorrendo os acordos políticos entre partidos e seus dirigentes. Não é nenhuma novidade que acordos entre legendas partidárias na maioria dos casos não cumpre as determinações de estatutos e suas propostas ideológicas, principalmente hoje.

Especificamente no Pará há distorções - a meu ver - graves e que, de certa forma, fazem ruir discursos e posturas ideológicas de alguns partidos. Vamos aos fatos. O PPS paraense sob a direção do deputado estadual Arnaldo Jordy, segue a orientação nacional e apóia os tucanos nesta eleição a exemplo de 2008. O PPS (Partido Popular Socialista) que em seu próprio nome se apresenta como um partido popular, das massas e socialista, apóia O PSDB e o DEM, partido que defende o liberalismo no Brasil.

O PT, por exemplo, vem firmando acordos bem estranhos pelo Brasil, que deixam as tendências mais à esquerda de cabelo em pé. No Pará havia fortemente a possibilidade do partido coligar com o DEM, dirigido pelo casal Pires Franco. PT e DEM juntos, em campanha. Dá para acreditar? No mínimo inusitado e de forte exercício mental.

O acordo só não saiu do papel e das pretensões dos dirigentes das duas legendas por falta de consenso. O PT não cedeu a segunda vaga para o senado ao DEM, que lançaria a ex-vice governadora, Valéria Pires Franco. Caso os petistas cedessem, poderíamos ter aqui, no Pará, uma coligação que seria impossível há tempos atrás, sem o mínimo de constrangimento aos petistas. Vale tudo em nome da reeleição da governadora Ana Júlia e a continuação do projeto de poder do partido. Até mesmo desconsiderar a história da legenda?

O nome deste artigo é uma celebre frase de Maquiavel, o pai da ciência política, que a utilizou como forma de responder aos seus críticos por algumas atitudes recomendadas pelo próprio aos seus “pupilos”. Mais do que nunca, hoje em dia, a frase de Maquiavel torna-se uma realidade quase que cotidiana em nossa política partidária.

Outro ponto de extremo constrangimento (ou não?) para o PT é o apoio do PTB do prefeito Duciomar Costa. Não pelo apoio em si. Mas pelas exigências do Partido Trabalhista do Brasil feito ao PT para apoiar este na reeleição ao governo. No encontro com Ana Júlia o atual prefeito de Belém, Duciomar Costa, exigiu em troca do apoio, uma vaga para o TCE (Tribunal de Contas do Estado), algumas secretarias de governo o pagamento dos recursos devidos pelo Estado a Prefeitura de Belém, além do apoio da bancada de vereadores do PT na CMB para aprovação do projeto que repassa a concessão do serviço público em diversas áreas para a iniciativa privada.

A competente jornalista Rita Soares em seu blog da Repórter, afirmava ser o apoio político mais caro cobrado a um partido político nos últimos anos no Pará. O PT cederia às imposições de Duciomar? Pelo visto sim. Incluindo discutir o processo de repasse do sistema de abastecimento de água e saneamento de Belém, algo impensado para os parâmetros petistas há alguns anos atrás.

A imposição de Duciomar fez com que o PT através de ordens expressas da governadora intercedesse junto à bancada de vereadores do partido através de incursões diárias ao recinto legislativo do chefe da Casa Civil, Everaldo Martins. Dos cinco vereadores, apenas um concordou em votar a favor do prefeito. Por mais que negue a pressão sobre os vereadores, o PT nos bastidores cobra o cumprimento da ordem da direção. Se os cinco vereadores que ainda resistem às ordens do partido, caso não acatem a determinação sofrerão punições? Serão expulsos do partido?

O atual cenário como perfeitamente foi colocado pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto em seu jornal quinzenal é desolador, estimulante e sem razão. Fazem tudo em nome de apoio e alguns minutos ou segundo a mais no horário eleitoral. Não importando se os acordos irão de encontro aos direcionamentos do próprio partido e nem se a militância (neste caso especificamente do PT) concordará. Os mesmos deverão acatar o que foi decidido nos gabinetes, nos escritórios. A política está cada vez mais distante das ruas, das massas e muito mais próxima dos recintos fechados, das decisões em pequenas rodadas de interesses particulares de alguns.

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3

de
julho

Por que crescer é ruim?

Artigo extraído da revista O Retrato do Brasil, na íntegra.

A economia brasileira acelerou no primeiro trimestre e Lula vibrou. Mas o governo está empenhado em freá-la. Por que nem Serra, nem - muito menos - Dilma criticam essa atitude?

 

A notícia de que o pib brasileiro cresceu 9% no primeiro trimestre deste ano em relação ao do mesmo período do ano passado fez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva exultar durante um tour que realizou pelo Nordeste no mês passado (imagem ao alto). “É um crescimento exuberante”, disse ele em Fortaleza na presença do governador cearense, Cid Gomes, ao falar do anúncio feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Enquanto isso ocorria por aqui, as notícias sobre a crise financeira que atinge a Europa mostravam um agravamento.

Após os governos de Grécia, Portugal e Espanha terem divulgado planos com profundos e dolorosos cortes nas despesas orçamentárias - que incluem redução de salários e demissões de funcionários públicos -, foi a vez de o governo da Alemanha anunciar sua intenção de fazer o mesmo - algo que tem muito mais peso, já que se trata da mais forte economia europeia e uma das maiores do mundo. A crise no Velho Continente pode abalar a débil recuperação da economia dos EUA, levando-a a uma recaída de sua própria crise - que desta vez seria ainda pior que a primeira.

O País vive uma campanha eleitoral. Se a crise é possível e pode ser dramática, quem terá de dirigir os esforços do Brasil para enfrentar os seus efeitos é o próximo presidente da República. No entanto, até as convenções partidárias nacionais, que definiram no mês passado as chapas dos principais concorrentes, a crise do sistema capitalista era uma questão praticamente ausente dos discursos de Dilma Rousseff e José Serra, os dois candidatos com mais chances de ganhar, segundo o estado atual da opinião pública. Por quê? Os motivos são dois.

O primeiro é que o debate eleitoral no Brasil, nos últimos tempos, não é o momento para discutir questões muito complexas e relevantes. A próxima etapa do calendário eleitoral começa neste mês, com a abertura da campanha autorizada pela legislação. Ainda não é a fase, tão aguardada, em que os postulantes aos cargos disputados nas eleições de outubro começarão a se utilizar de emissoras de rádio e TV.

A fase da grande mídia eletrônica, que se inicia em meados de agosto, é encarada como essencial, especialmente para os concorrentes à Presidência. É quando os comitês de campanha de partidos e candidatos se empenham para ganhar o voto da massa dos eleitores com os maiores e melhores programas possíveis de rádio e TV e, agora, internet. Como se a eleição fosse o julgamento de um desfile de candidatos bem falantes e bem maquiados, e não um momento de mobilização e reflexão profunda do povo do País. 

A propaganda em rádio e TV é encarada de modo tão decisivo que acaba por justificar acordos entre forças políticas que, pelo menos em teoria, têm pouco em comum, do ponto de vista programático. O caso mais evidente é o da aliança preferencial do PT com o PMDB para a eleição presidencial. Graças principalmente à presença do PMDB, a coligação petista terá um tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e TV 23% superior ao da coligação tucana. O empenho petista em se coligar aos peemedebistas implicou em intervenções mais ou menos veladas em diretórios como os de Minas Gerais e Maranhão, para formalizar acordos com candidatos do PMDB aos governos estaduais.

Na convenção peemedebista, ficou evidente que o acerto do PT com o PMDB pode custar caro ao partido de Lula. O ex-ministro Geddel Vieira Lima, que concorre ao governo baiano contra o petista Jacques Wagner, disse que, num eventual futuro governo com Dilma à cabeça e o peemedebista Michel Temer como vice, seu partido quer uma participação ativa. O recado é evidente: o PMDB quer comandar mais ministérios que os atuais seis e maior poder para nomear seus quadros para ocuparem postos de direção nas estatais e nos principais órgãos federais.

A aliança preferencial do PSDB com o DEM também, pelo menos na aparência, deveria ser vista como problemática, especialmente porque Serra não só se diz como a esquerda do seu partido como tem feito criticas à política econômica do governo Lula, em especial à cambial. E o Democratas (ex-PFL) foge dessa discussão. O DEM está em evidente decadência desde que se tornou oposição ao governo federal. Mas está pressionando Serra. E este, com certeza para agradar sua direita, saiu-se com declarações inesperadas para quem se diz de esquerda. 

1

de
julho

As eleições de 2010 no Pará. Parte XII

Com o término do prazo determinado pela Justiça Eleitoral para as coligações e lançamento de candidaturas, o cenário político paraense torna-se mais claro. Ontem, dia 30, por exemplo, a candidatura de Ana Júlia foi referendada pelo PT à reeleição ao governo do Estado tendo o apoio, além do PT de mais 14 partidos (PR, PSB, PC do B, PP, PDT, PTB, PSC, PRB, PHS, PTC, PT do B, PRP, PTN e PRTB) que garante a governadora um tempo de TV considerável, com quase dez minutos, três vezes mais do que seus adversários.

Sem dúvida pela configuração da coligação acima, a governadora terá enorme vantagem com relação aos outros candidatos. Essa questão por si só a credencia para um favoritismo na eleição. Segundo pesquisas internas e não-oficiais do PT, a governadora lidera as pesquisas de opinião e verifica-se que os índices baixos de popularidade estão se revertendo.

O candidato tucano no Pará será Simão Jatene, tendo como vice o advogado tributarista, Helenilson Pontes do PPS, único partido político de médio porte a apoiar a candidatura tucana. Os outros são considerados nanicos (PRP, PRTB, PSDC e PMN) garantindo ao candidato pouco mais de dois minutos de tempo na TV.

E o DEM? Bom, o Democratas não apoiaram a candidatura tucana no Pará (até a produção deste artigo, o referido partido ainda não havia decidido quem apoiará) pela primeira vez. A atitude do partido é em resposta a falta de apoio tucano nas eleições de 2008, quando Valéria Pires Franco concorria a Prefeitura de Belém. Agora a “gentileza” é retribuída. Sem o apoio do DEM a candidatura de Jatene fica comprometida. Perde uma grande sustentação política pelos interiores e tempo de TV.

A tal chamada terceira via, liderada pelo deputado federal Jáder Barbalho que lançou a candidatura do deputado estadual e presidente da Assembléia Legislativa, Domingos Juvenil para o governo do Estado ainda é uma incógnita no processo político. O PMDB é o maior detém o maior número de prefeituras no Pará e conta - agora - com o apoio do ex-governador Almir Gabriel para a disputa.

Conforme havia dito aqui e o que foi noticiado em outros blogs, principalmente na “Perereca da Vizinha”, a candidatura de Juvenil é carta na manga de Jáder para forçar o segundo turno e assim, escolher quem apoiará, vendendo claro muito caro esse apoio. O tempo de TV de Juvenil não chega há três minutos.

Especialistas em eleições afirmam que, a governadora Ana Júlia terá ampla vantagem frente aos seus adversários, além da máquina a sua disposição. Alguns afirmam que a vitória poderá ser em primeiro turno, algo que desconsidero. Os erros primários cometidos na gestão do PT no Pará deverão ser a artilharia que a oposição necessita para desbancar o favoritismo e o clima de já ganhou de muitos petistas.

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28

de
junho

As sucessivas trapalhadas tucanas

Desde o lançamento das pré-candidaturas de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) no início do ano é a primeira vez que a petista ultrapassou o tucano em pesquisa acima da margem de erro (costumeiramente fixada em três pontos) segundo o Ibope.

A diferença a favor de Dilma é de cinco pontos, vantagem numérica - no mínimo - interessante. A petista lidera com 40% das intenções de votos contra 35% de Serra. Marina Silva, do PV, se mantém com 9%. Para os petistas é uma margem segura, administrável. Para os tucanos uma diferença seguramente alcançável.

Por razões óbvias e coerentes discordo da posição tucana. Explico. Nas últimas duas semanas o candidato José Serra esteve aparecendo constantemente na mídia, mantendo boa visibilidade nacional, com incursões diárias nos principais veículos de comunicação do país que, além das aparições no tempo de propaganda de seu partido, apareceu na propaganda de outras legendas aliadas. Por essa razão o candidato tucano deveria ter - pelo menos - mantido a liderança contra a sua adversária.

A candidatura de Serra, na verdade, desde o início teve problemas em sua condução. Primeiro pela escolha do candidato para a disputa. Depois pela fissura ocorrida entre Serra e Aécio, o ex-governador de São Paulo, ganhou a indicação e rumou em frente. A questão seguinte era a escolha do vice. O que perdurou por meses até que, nesta última semana, o mistério do nome que irá compor a chapa com Serra foi escolhido. O senador paranaense tucano, Álvaro Dias, foi referendado para o cargo.

O natural seria a escolha de um nome dentro do quadro do DEM, que historicamente apóia o PSDB. A opção tucana foi pela chapa puro-sangue, ou seja, outro nome dentro do próprio partido. Essa atitude despertou a irá dos democratas, que logo reprovaram tal atitude dos tucanos, exigindo respeito e que não irão abrir mão da indicação do vice.

Na coligação de Serra estão, por enquanto, o PPS e agora o PTB, este recentemente incorporado à coligação tucana, além, é claro, o DEM.

Enquanto a campanha de Serra patina em erros primários, a de Dilma cresce e cria bases sólidas para uma vitória, quem sabe, ainda em primeiro turno. Muitos especialistas, marqueteiros e cientistas políticos afirmam categoricamente que a candidata petista só perde para ela mesma. O que não é algo difícil de acontecer, haja vista, que Dilma já demonstrou sua capacidade de cometer deslizes e erros. Essa é a maior, se não a única opção tucana de retomar a liderança nas pesquisas e quem sabe, ganhar a eleição, algo pouco provável pelas atuais circunstâncias político-eleitorais.

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25

de
junho

Dunga X Rede Globo

Não é nenhuma novidade aos mais atentos que há décadas que a Rede Globo, a maior emissora do país, a quarta maior do mundo, detém alguns privilégios com relação à cobertura dos jogos da seleção brasileira e o monopólio de informações em Copas do Mundo. Essa relação extremamente próxima entre a emissora e os dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) durou décadas sem maiores questionamentos.

Após a saída precoce do Brasil na Copa da Alemanha (perdendo da França por 1 a 0 nas quartas) o ex-jogador - até  então nunca tinha sido técnico em time algum - Dunga para dirigir a seleção. Choveu críticas à escolha e a própria aceitação de Dunga para o cargo. O principal questionamento era como Dunga treinaria uma seleção do porte do Brasil sem ter experiência no cargo.

Em um de seus primeiros jogos no comando da seleção, Dunga venceu a seleção da Argentina por um placar convincente, 3 a 0 com uma apresentação elogiada por todos. Na época escrevi sobre a questão (o blog até então se proposto a discorrer sobre futebol), (http://henriquegeo.blog.terra.com.br/2007/07/16/psicologia-dungaliana/) e (http://henriquegeo.blog.terra.com.br/2006/09/04/os-dois-lados-da-moeda/) tratando justamente do desempenho da seleção na Era Dunga.

Independente de experiência, Dunga conquistou todos os títulos que disputou. Copa América em cima da Argentina e Copa das Confederações vencendo os Estados Unidos. Classificou a seleção em primeiro, com quatro rodadas de antecedência, algo que não acontecia nas últimas três Copas do Mundo. Montou o time ao seu gosto e não por ingerências externas da mídia que, costumeiramente utiliza a opinião pública para forçar a escalação desse ou daquele jogador.

Quando era jogador Dunga sempre manteve estilo sério, de poucas palavras, um líder dentro e fora de campo. Nunca se preocupou em ser simpático. Manteve o estilo, agora como técnico. Começou a barrar algumas incursões de algumas emissoras, principalmente a Globo, que até então tinha alguns “privilégios” autorizados pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, no cargo a mais de duas décadas.

A Globo nunca demonstrou publicamente sua insatisfação por Dunga, por um determinado momento até o cortejou. Mas logo que a emissora carioca percebeu que o técnico da seleção não iria ceder, voltou-se a atacá-lo a sua maneira: publicando notícias e estigando aos seus telespectadores a criticar Dunga, o que - de certa forma - funcionou.

A esperança das Organizações Globo seria a Copa do Mundo, onde o alto escalão da emissora esperava um “relaxamento” na cobertura da seleção o que, de novo, não aconteceu. A forma ríspida de Dunga nas entrevistas coletivas sempre foram alvo de muitos cronistas e jornalistas. Na semana passada, mais torrão do que de costume, Dunga falou termos que não cabe aqui reproduzi-los, direcionados ao repórter da Globo, o competente Alex Escobar.

Atitude de Dunga despertou uma polêmica: muitos foram a favor do técnico e outros contra. Claro que a ação de Dunga é reprovada, pois não é correto fazer apologia a má educação, mas no fundo, representou muito mais do que falta de respeito com a imprensa, como a Rede Globo fez questão de insinuar.

Pessoalmente refleti sobre a atitude de Dunga. Fez o que muitos brasileiros gostariam de fazer. Não diretamente a uma pessoa, como se fosse ataque pessoal, mas sim a uma organização empresarial que se acostumou a mandar e ter seus “caprichos” atendidos.

Na internet através das mídias alternativas foi deflagrada uma campanha de boicote a Rede Globo nos jogos do Brasil na Copa, começando pelo confronto com Portugal. A adesão foi mínima, o índice de audiência da emissora carioca continuou alta, mantendo-se bem à frente da concorrência.

Na ocasião a Globo rebateu e criticou a postura de Dunga, mas logo se fez de esquecida com relação ao fato, para não criar mais visibilidade ao fato, que poderia tomar proporções “perigosas” a emissora carioca.

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21

de
junho

A questão da filiação partidária

Atualmente uma das questões que mais me intriga é a questão de minha filiação a um partido político. Minha trajetória política é recente. Começou com a minha atuação na direção de DCE estudantil de uma faculdade particular em Belém, exercendo o cargo de vice-presidente. Naquele momento começava a me integrar ao meio político, com participação em debates, reuniões.

Naquele momento recebi o primeiro convite de filiação de partido político, na época o PCdoB, que controlava - e ainda controla - a massa estudantil no Brasil, no Pará e em Belém. Surgiu o primeiro embate na condução de nossa entidade representativa estudantil, defendia a não partidarização do DCE. Não aceitava que fossemos dirigidos por interesses de partidos, de forças exógenas. Perdi a queda de braço interna e saí. Entreguei o cargo.

Logo depois voltei a me envolver com política. Plena campanha de 2008, no município de Santo Antônio do Tauá, no nordeste paraense. Cidade pequena, com 25 mil habitantes, com graves problemas sociais. Lá, comecei a desenvolver um plano de governo para uma candidatura para concorrer à prefeitura. Concomitantemente desenvolvia pesquisas sobre dados e balanços orçamentários da gestão municipal.

Por ocasião de meus trabalhos conheci pessoas e presenciei fatos e acordos políticos que me levaram a pensar na política em sua essência, na forma de se fazer política e na nossa politicagem. O candidato que apoiei ganhou, mas logo em seguida foi cassado por “desvios contábeis” em sua gestão.

Depois me retirei da atuação política direta. Nesse intervalo de tempo, recebi convites do PSB e do PT. Não aceitei nenhum dos dois. O primeiro por não concordar com a família que o dirige no Pará. O segundo por não concordar e até não aceitar sua crise existencial e postura atual, tornando-se uma legenda partidária de centro e não da esquerda.

Mesmo renegado a possibilidade de ingressar em algum partido, não a descarto. Por que não me filiar então e acabar com essa angústia pessoal? Primeiro por não concordar com a forma de atuação da política partidária nos dias atuais. Da forma de como os partidos conduzem a política e interagem entre si. A mudança do PT ao chegar à presidência em 2003 é o maior exemplo disso. A mudança programática dos partidos de esquerda ao chegar ao poder trás consigo um amplo debate sobre a questão, que requer outro artigo para debatê-lo.

As coligações e acordos feitos pelo PT demonstram que a fragilidade das idéias e propostas dos partidos nos dias atuais, com raras exceções. Tudo é feito e aceito em nome da governabilidade. Os partidos não sabem viver sem ela. Antigamente os partidos debatiam, buscam propor, criar militância. Hoje não passam de parasitas do Estado, em busca de cargos e poder. Se resumiram a isso.  

Outro ponto diz respeito ao meu próprio perfil. O ato de filiação partidária requer uma mudança e aceitação de normas e determinações que não sei se conseguiria segui-las. Por exemplo, neste blog, escrevo livremente sobre os mais variados assuntos, defendendo e criticando quando acho necessário qualquer pessoa ou instituição. Tenho liberdade em escrever. E prezo em preservar essa liberdade. Filiado a um partido, não poderia escrever sobre o que penso. Perderia a minha tão preciosa autonomia crítica.

Como disse anteriormente, não descarto me filiar a um partido político. Mas essa é uma escolha, opção mais à frente. Não pretendo decidir agora. Reservo-me desse direito.

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19

de
junho

José Saramago, o bom combatente

Escrevo este artigo em homenagem a ao escritor português recém falecido, José Saramago com a frase do cineasta brasileiro, Fernando Meirelles: “Definitivamente o mundo ficou ainda mais burro e ainda mais cego hoje”. Meirelles reuniu em um punhado de palavras o que representou e a importância de José Saramago para o mundo.

O escritor português além de escrever importantes obras, como ser humano crítico foi um dos maiores, estando à frente de seu tempo. Saramago foi além de uma referência à literatura, um importante crítico da realidade. Declarava-se ateu e comunista. Combatia ferozmente as religiões e principalmente a Igreja Católica, com quem cortou relações desde quando uma de suas maiores obras “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” lançado em 1991, foi condenada pela Igreja e proibida de concorrer nos prêmios literários daquele ano.

Saramago se refugiou na Espanha, nas Ilhas Canárias, rompendo relações com o governo Português. Sua criticidade continuava em suas incursões intelectuais, na escrita, na oratória.

Confesso que conheci e tive contato com as obras do referido escritor recentemente, depois de ter visto o filme “Ensaios sobre a cegueira”, onde me foi despertada sobre a excelência em escrever de Saramago. Há poucos meses, passei trabalho para meus alunos da 8º série sobre o processo de globalização, visto sob várias óticas. A atividade era a produção de um debate entre três grupos que defenderiam suas respectivas posições sobre a globalização: como fábula, perversidade e por uma outra globalização. Essas questões estão originalmente no livro “Por uma outra globalização” do geógrafo Milton Santos.

O livro originou um documentário de mesmo título, onde José Saramago aparece rapidamente questionando em palestra o papel da ONU e o conceito de democracia no mundo. Uma incursão rápida mais marcante do escritor, muito aplaudido na ocasião.

Por ter sido polêmico o escritor ganhou muitos adeptos e também desafetos, principalmente dentro da Igreja e de grupos econômicos que Saramago como comunista e humanista combatia. Sem dúvida, o maior escritor da língua portuguesa (e deverá ser por muito tempo). Como Saramago era ateu não posso lhe desejar que esteja ao lado de Deus, desejo onde estiver que descanse em paz.

Biografia

Saramago nasceu em Azinhaga, no Ribatejo, de uma família de pais e avós pobres. A vida simples, passada em grande parte em Lisboa, para onde a família se muda em 1924 - era um menino de apenas dois anos de idade - impede-o de entrar na universidade, apesar do gosto que demonstra desde cedo pelos estudos. Para garantir o seu sustento, formou-se numa escola técnica. O seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico. Entretanto, fascinado pelos livros, à noite visitava com grande frequência a Biblioteca Municipal Central - Palácio Galveias na capital portuguesa.

José Saramago no Festival Internacional de Filmes de San Sebastián segurando a tradução em língua persa do seu livro Ensaio sobre a cegueira.

Autodidacta, aos 25 anos publica o primeiro romance Terra do Pecado (1947), mesmo ano de nascimento da sua filha, Violante, fruto do primeiro casamento com Ilda Reis - com quem se casou em 1944 e permaneceu até 1970 - nessa época, Saramago era funcionário público; em 1988, casar-se-ia com a jornalista e tradutora espanhola María del Pilar del Río Sánchez, que conheceu em 1986, ao lado da qual continuou a viver até sua morte. Em 1955, começou a fazer traduções para aumentar os rendimentos - Hegel, Tolstói e Baudelaire, entre outros autores aos quais se dedicou.

Depois de Terra do Pecado, Saramago apresentou ao seu editor o livro Clarabóia, que depois de rejeitado, permanece inédito até a data de hoje, sendo que depois disso, o mesmo persiste nos esforços literários e dezenove anos depois - então funcionário da Editorial Estudos Cor - troca a prosa pela poesia lançando Os Poemas Possíveis. Num espaço de cinco anos, depois, publica sem alarde mais dois livros de poesia, Provavelmente Alegria (1970) e O Ano de 1993 (1975). É quando troca também de emprego, abandonando a Estudos Cor para trabalhar no Diário de Notícias, depois no Diário de Lisboa. Em 1975, retorna ao Diário de Notícias como director-adjunto, onde permanece por dez meses, até 25 de Novembro do mesmo ano, quando os militares portugueses intervêm na publicação (reagindo ao que consideravam os excessos da Revolução dos Cravos) demitindo vários funcionários. Demitido, Saramago resolve dedicar-se apenas à literatura, substituindo de vez o jornalista pelo ficcionista: “(…) Estava à espera de que as pedras do puzzle do destino - supondo-se que haja destino, não creio que haja - se organizassem. É preciso que cada um de nós ponha a sua própria pedra, e a que eu pus foi esta: “Não vou procurar trabalho”, disse Saramago em entrevista à revista Playboy, em 1988.

Da experiência vivida nos jornais, restaram quatro crónicas: Deste Mundo e do Outro, 1971, A Bagagem do Viajante, 1973, As Opiniões que o DL Teve, 1974 e Os Apontamentos, 1976. Mas não são as crónicas, nem os contos, nem o teatro os responsáveis por fazer de Saramago um dos autores portugueses de maior destaque - missão reservada a seus romances, género a que retorna em 1977.

Três décadas depois de publicado Terra do Pecado, Saramago retornou ao mundo da prosa ficcional com Manual de Pintura e Caligrafia. Mas, ainda não foi aí que o autor definiu o seu estilo. As marcas características do estilo saramaguiano só apareceriam com Levantado do Chão (1980), livro no qual o autor retrata a vida de privações da população pobre do Alentejo.

Dois anos depois de Levantado do Chão (1982) surge o trabalho Memorial do Convento, livro que conquista definitivamente a atenção de leitores e críticos. Nele, Saramago misturou factos reais com personagens inventados: o rei D. João V e Bartolomeu de Gusmão, com a misteriosa Blimunda e o operário Baltazar, por exemplo.

De 1980 a 1991, o autor trouxe a lume mais quatro romances que remetem a fatos da realidade material, problematizando a interpretação da “história” oficial: O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - sobre as andanças do heterónimo de Fernando Pessoa por Lisboa; A Jangada de Pedra (1986) - quando a Península Ibérica solta-se do resto da Europa e navega pelo Atlântico; História do Cerco de Lisboa (1989) - onde um revisor é tentado a introduzir um “não” no texto histórico que corrige, mudando-lhe o sentido; e O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) - onde Saramago reescreve o livro sagrado sob a óptica de um Cristo humanizado (sendo esta a sua obra mais controvertida).

Nos anos seguintes, entre 1995 e 2005, Saramago publicou mais seis romances, dando início a uma nova fase em que os enredos não se desenrolam mais em locais ou épocas determinados e personagens dos anais da história se ausentam: Ensaio Sobre a Cegueira (1995); Todos os Nomes (1997); A Caverna (2001); O Homem Duplicado (2002); Ensaio Sobre a Lucidez (2004); e As Intermitências da Morte (2005). Nessa fase, Saramago penetrou de maneira mais investigadora os caminhos da sociedade contemporânea.

O mesmo faleceu no dia 18 de Junho de 2010, aos 87 anos de idade, na sua casa em Lanzarote onde residia com a mulher Pilar del Rio, vítima de leucemia crónica. O escritor estava doente há algum tempo e o seu estado de saúde agravou-se na sua última semana de vida.

Obra

Saramago foi conhecido por utilizar frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos das personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases (i.e. orações) ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Da mesma forma, muitos dos seus parágrafos ocupariam capítulos inteiros de outros autores. Apesar disso o seu estilo não torna a leitura mais difícil, se os seus leitores se habituarem facilmente ao seu ritmo próprio.

Estas características tornam o estilo de Saramago único na literatura contemporânea, sendo considerado por muitos críticos um mestre no tratamento da língua portuguesa. Em 2003, o crítico norte-americano Harold Bloom, no seu livro Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds (”Génio: Um Mosaico de Cem Exemplares Mentes Criativas”), considerou José Saramago “o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje” (tradução livre de the most gifted novelist alive in the world today), referindo-se a ele como “o Mestre”. Declarou ainda que Saramago é “um dos últimos titãs de um género literário que se está a desvanecer”.

Fonte: Wikipédia.

Acesse meu twitter: http://www.twitter.com/henriquembranco

18

de
junho

As eleições de 2010 no Pará. Parte XI

 Faltam duas semanas para que o cenário político das eleições que ocorrerão no mês de outubro se definem. No próximo dia 30, finda o prazo estipulado pela Justiça Eleitoral para definições de candidaturas e apoios políticos.

Com a proximidade do prazo legal, alguns cenários foram definidos e outros estão se definindo. O PMDB lançou candidatura própria ao governo. O atual presidente da Alepa, Domingos Juvenil, será o candidato peemedebista, mesmo com ameaça interna de prévias, liderado por José Priante, que naturalmente seria o indicado.

O PR definiu apoio a reeleição de Ana Júlia, indicando presidente estadual do partido, Anivaldo Vale para vice na chapa da governadora, além de alguns cargos importantes, dentre eles a Setrans. O PDT, liderado pelo deputado federal Giovane Queiroz, também embarcou na campanha petista, levando o Detran, a mina de ouro do governo. Falta o PTB.

O partido do prefeito de Belém, Duciomar Costa está em plena negociação com o governo, faltando acertar questões de repasse do ICMS do Estado a prefeitura de Belém, que ultrapassam a casa dos 250 milhões de reais. Cogita-se uma das vagas para o Senado ao partido que poderia ser oferecida ao empresário Fernando Yamada.

Partidos que tradicionalmente apóiam o PT como o PSB e PCdoB definiram apoio a governadora, além do PRB que também estará ao lado dos petistas. A chapa petista perdeu o apoio do PMDB no primeiro turno, apoio que poderá acontecer naturalmente no segundo turno.

A chapa tucana está com apoio de apenas uma legenda, o PPS. O seu aliado histórico, o DEM ainda não definiu apoio, por conta de resquícios da eleição de 2008, onde os tucanos dispensaram apoio maior a candidatura de Valéria Pires Franco. Agora vem o troco do DEM, mesmo que isso necessite coligar com o PT, no Pará.

O índice de rejeição a governadora deverá cair por dois motivos: melhora significativa na propaganda do governo e agilidade nas entregas de obras. A candidatura de Ana Júlia está a cada dia mais competitiva, cabendo apenas esperar o adversário no segundo turno das eleições.

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13

de
junho

“Veja foi indispensável para construir o neoliberalismo”

Afirmação é da pesquisadora Carla Luciana Silva, que registrou em sua tese de doutorado o papel assumido pela principal revista do Grupo Abril na construção da hegemonia neoliberal no país. http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/entrevistas/veja-foi-indispensavel-para-construir-o-neoliberalismo/image_mini

A professora do curso de História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) Carla Luciana Silva passou meses dedicando-se a leitura paciente de pilhas de edições antigas da revista Veja. A análise tornou-se uma tese de doutorado, defendida na Universidade Federal Fluminense, e agora, em livro. “Veja: o indispensável partido neoliberal (1989-2002)” (Edunioeste, 2009, 258 páginas) é o registro do papel assumido pela principal revista do Grupo Abril na construção do neoliberalismo no país.

A hipótese defendida pela professora Carla é que a revista atuou como agente partidário que colaborou com a construção da hegemonia neoliberal no Brasil. Carla deixa claro que a revista não fez o trabalho sozinha, mas em consonância com outros veículos privados. Porém, teve certo protagonismo, até pelo número médio de leitores que tinha na época - 4 milhões, afirma Carla em seu livro.

“A revista teve papel privilegiado na construção de consenso em torno das práticas neoliberais ao longo de toda a década. Essas práticas abrangem o campo político, mas não se restringem a ele. Dizem respeito às técnicas de gerenciamento do capital, e à construção de uma visão de mundo necessária a essas práticas, atingindo o lado mais explícito, produtivo, mas também o lado ideológico do processo”, afirma trecho do livro.

Sobre o título do livro, porque “indispensável”? É uma brincadeira com o slogan da Veja ou reflete a importância da revista para o avanço do neoliberalismo no Brasil?

O título é uma alusão ao slogan da revista e ao mesmo tempo nos lembra que ela foi um sujeito político importante na construção do neoliberalismo. A grande imprensa brasileira foi indispensável para que o neoliberalismo tenha sido construído da forma que o foi. A Veja diz ser indispensável para o país que queremos ser. A pergunta é: quem está incluído nesse “nós” oculto? A classe trabalhadora é que não.

Quais os interesses defendidos por Veja?

Os interesses são os dominantes como um todo, mais especificamente os da burguesia financeira e dos anunciantes multinacionais. Em que pese o discurso de defesa da liberdade de expressão articulado à publicidade, o que importa pra revista são os interesses em torno da reprodução capitalista. A revista busca se mostrar como independente, o que se daria através de sua verba publicitária. É fato que a revista tem uma verba invejável, mas isso não a transforma no Quarto Poder, que vigiaria os demais de forma neutra. Ao mesmo tempo em que ela é portadora de interesses sociais, faz parte da sociedade, a sua vigilância é totalmente delimitada pela conjuntura e correlação de forças específica. O exemplo mais claro são as denúncias de corrupção e forma ambígua com que Veja tratou o governo Collor, o que discuto detidamente no livro.

Isso significa defender atores e grupos específicos? E, ao longo dos anos, estes atores mudam?

Essa pergunta é mais difícil de responder, requer uma leitura atenta, a cada momento histórico especifico. A revista não é por definição, governista [no período estudado]. Ela é defensora de programas de ação. No período analisado (1989-2002), sua ação esteve muito próxima do programa do Fórum Nacional [www.forumnacional.org.br] de João Paulo dos Reis Velloso. Ela busca convencer não apenas seus leitores comuns, mas a sociedade política como um todo e também os gerentes capitalistas.

E que relação Veja estabelece com grupos estrangeiros?

Essa é outra pergunta que requer atenção e mais estudos. O Grupo Abril não é um grupo “nacional”. Suas empresas têm participação direta de capital e administração estrangeira. Primeiro, é importante ter claro que o Grupo Abril não se restringe a suas publicações. A editora se divide em várias empresas, sendo que a Abril é majoritariamente propriedade do grupo Naspers, dono do Buscapé [site de comparação de preços] e de empresas espalhadas pelo mundo todo, da Rússia à Tailândia. Essa luta pela abertura de capital [no setor das comunicações] foi permanente ao longo dos anos 1990 e a Abril foi o primeiro grande conglomerado [de comunicação] brasileiro a abrir seu capital legalmente. É bom lembrar que o grupo tem investido bastante também na área da educação, e por isso a privatização do ensino continua sendo uma meta a atingir.

Aconteceram várias edições do “Fórum Nacional” no período em que faz sua análise. Por que Veja defendeu com tanto afinco as resoluções, especialmente econômicas, saídas desse Fórum?

O Fórum Nacional tem vários títulos. Eles [os integrantes do Fórum] foram se colocando ao longo dos anos, desde 1988, como intelectuais que pensam o Brasil e defendem programas de ação - as formas específicas de construção de um projeto sócio-econômico, que mudaram ao longo dessas duas décadas. Não existe um vínculo orgânico da revista com o Fórum, ao menos não o comprovamos, mas existe uma afinidade de programa de ação. A tentativa de reforma da Constituição em 1993 foi um bom exemplo, conforme desenvolvo no livro.

No livro, você aponta que a Veja “comprou” as idéias no Fórum Nacional, transformando-as numa verdadeira cartilha econômica para salvar o Brasil no começo dos anos 90. Quais seriam os principais tópicos desta “cartilha”?

O Fórum Nacional surgiu em 1988 como uma forma de organizar o pensamento e ação dominante. Ele se constituiu um verdadeiro aparelho privado de hegemonia, buscando apontar caminhos para a forma da hegemonia nos anos 1990. E existe até hoje, fazendo o mesmo. Portanto, ele não é apenas uma fórmula econômica, mas de economia política. Tratou de temas relevantes como “modernidade e pobreza”, “Plano Real”, “Segurança”, “estratégia industrial”, “política internacional”, sempre trazendo intelectuais considerados “top” do pensamento hegemônico para ver, a partir de suas pesquisas, quais caminhos deveriam ser seguidos, não apenas pelos governos, mas também pela sociedade política, ditando os rumos da economia.

Essa “cartilha” econômica foi atualizada? Você se recorda de alguma campanha recente em que a revista tenha tomado a frente?

A atualização é constante, mas não é uma cartilha. O Fórum e a revista são independentes um do outro, ao que parece, não há um vinculo orgânico. Mas Veja assumiu várias campanhas, sendo a principal delas a manutenção do programa econômico de Fernando Henrique durante todo o governo Lula. A blindagem feita ao presidente Lula da Silva foi imensa, especialmente se compararmos com o que foi feito do caso do mensalão ao que ocorreu no governo Fernando Collor. O que explica isso parece ser claramente a política econômica [de FHC e reproduzida por Lula] que garantiu lucros enormes aos bancos e a livre circulação de capitais, além de outras políticas complementares.

Qual foi a importância da revista para a corrente neoliberal desde Collor? Dá para mensurar?

Foi muito importante, mas não dá pra mensurar. É importante que tenhamos claro que o neoliberalismo não é uma cartilha, por mais que se baseie em documentos como o Consenso de Washington, por exemplo. Ele não foi “aplicado”. Foi construído como projeto de hegemonia desde os anos 1980. A grande imprensa participou da efetivação de padrões de consenso fundamentais: as privatizações, o ataque ao serviço público, a suposta falência do Estado. É importante olharmos hoje, pós crise de 2008, para ver que muitos desses preceitos são defendidos como saída da crise.

Qual a importância de Veja para as privatizações?

Difícil medir dessa forma. Posso falar da importância das privatizações para Veja: elas precisavam acontecer de qualquer forma. E isso era um compromisso com o projeto que representava e com os seus interesses capitalistas específicos, do Grupo Abril. É bom lembrar que a criação de consenso em torno desse ideal foi importante para que o grupo pudesse abrir seu capital oficialmente ao capital externo.

Veja deixa de ser neoliberal para ser neoconservadora? Digamos assim, amplia sua atuação do debate econômico, fundamental à implantação do neoliberalismo, e passar a fazer campanhas também em outras pautas conservadoras?

Não vejo essa distinção. Neoliberalismo foi um projeto de hegemonia, uma forma de estabelecer consenso em torno de práticas sociais específicas. A forma do capitalismo imperialista, portanto, não se restringe à economia. A política conservadora sempre esteve presente no neoliberalismo, haja visto a experiência de [Ronald] Reagan [presidente dos Estados Unidos] e [Margareth] Thatcher [primeira-ministra da Grã-Bretanha], a destruição do movimento sindical, a imposição do chamado pensamento único. Por esse caminho chegou-se a dizer que a história tinha acabado e que a luta de classes não fazia mais sentido. Os movimentos sociais foram duramente reprimidos e, além disso, se buscou construir consenso em torno de sua falência, o que foi acompanhado pelo transformismo dos principais partidos de esquerda, especialmente no Brasil. O que vemos hoje é a continuidade dessa política. Os dados dos movimentos sociais denunciam permanentemente o quanto tem aumentado a sua criminalização ao passo que os incentivos ao grande capital do agrobusiness só aumenta.

Existem diferenças muito contundentes entre a Veja de 89, a de 2002 e a de hoje?

Há diferenças claro. Havia, em 1989, um grau um pouco mais elevado de compromisso com notícias, com investigações jornalísticas, o que parece ter se perdido totalmente ao longo dos anos. A revista se tornou uma difusora de propagandas, tanto de governos como de produtos (basta ver as capas sobre Viagra ou cirurgias plásticas).

Já nos primeiros capítulos do livro, você chama atenção para o fato de Veja ser muito didática e panfletária quanto ao liberalismo. Ela deixou de fazer apologia ao neoliberalismo de maneira tão clara?

Teria que analisar mais detidamente. Essa é uma coisa importante: sentar e ler detidamente, semanas a fio, pra podermos concluir de forma mais segura a posição da revista.

Em algum momento do período analisado a revista foi muito atacada por alguma cobertura específica?

Sim, a revista teve embates, especialmente com a IstoÉ e, posteriormente, com a Carta Capital. Essas revistas talvez tenham ajudado a tirar uma ou outra assinatura de Veja em conjunturas especiais. O caso Collor não é simples como parece. A revista Veja fazia campanha nas capas mostrando o movimento das ruas e dentro do editorial ia dizendo que o governo deveria ser mantido em nome da governabilidade. Foi quando isso se tornou insustentável que ela defendeu a renuncia do presidente (e não o impeachment). Mas depois, construiu uma bela campanha publicitária. A Abril colocou luzes verde amarela em seus prédios, lançou boton comemorativo, pra construir memória, dizer que foi ela que derrubou o Collor. O importante é a gente perceber que não é esse o movimento mais importante. O importante é a gente ter instrumentos contra hegemônicos que nos permitam construir uma visão efetivamente critica do que está acontecendo. É importante ressaltar que ela [Veja] sempre fala como se fosse a porta-voz dos interesses da nação, do país, da sociedade, e como se não fosse ela portadora de interesses de classe.

Nota do blog:

O referido livro “Veja: o indispensável partido neoliberal (1989-2002)”, fruto de uma tese de doutorado, representa bem o papel exercido pela revista “Veja” e sua editora, a Abril, nas campanhas eleitorais. A pesquisa data de 1989 até o ano de 2002, anos em que a política neoliberal foi implementada no Brasil e de governos da direita conservadora.

Diferentemente de outros países, aqui no Brasil, a mídia não assume sua verdadeira posição política, pelo contrário, mantém-se na espreita, pois dessa forma, manipula, agride, e age de forma “descompromissada” em relação aos fatos.

Na verdade, sabemos do alto poder de influenciar de Veja, que através de sua visibilidade, torna-se uma importante arma da direita, sendo a principal ferramenta do PIG (Partido da Imprensa Golpista) no Brasil.

10

de
junho

Pela moralidade no ingresso ao serviço público

Em matéria de capa desta semana, o jornal Diário do Pará, voltou a tratar sobre a questão dos temporários e conseqüentemente dos concursados no estado do Pará. Na reportagem o jornal afirma que falta nomear pelo governo mais de cinco mil pessoas que passaram em concurso público e aguardam que seus direitos sejam respeitados.

Na Sead (Secretaria de Administração) órgão competente em nomear os cidadãos que ingressam no serviço público via concurso, afirma que pouco mais de três mil esperam por nomeação. Segundo a mesma secretaria mais de 20 mil pessoas já foram nomeadas nos últimos anos. Segundo a Sead, todos que ainda faltam ser chamados serão nomeados nos próximos meses, respeitando as restrições orçamentárias do governo.

Essa questão é complexa. Por conta disso, é necessário se fazer uma passagem histórica sobre a questão. A constituição de 1988, a vigente, de certa forma “facilitou” o ingresso e a contratação de DAS (Direção de Assessoramento Superior) além das contratações temporárias, servindo este de interesses políticos, em todas as esferas de poder, tornando um vício para quem detém a caneta. O objetivo do artigo constitucional era justamente agilizar a contratação de pessoas competentes para exercer ações nos governos, a fim de torná-lo mais eficiente, e não como dispositivo de interesses políticos.

No Pará a política do “apadrinhamento” se instaurou nos governos, independente de legenda partidária. Além do inchaço da máquina pela contratação desenfreada de pessoas, muito destas sem a mínima qualificação para a execução da atividade para que foram contratadas.

Durante mais de uma década esse cenário ficou imutável. Os governantes desrespeitavam as leis (que exige que qualquer pessoa adentre ao serviço público mediante aprovação em concurso) e quem deveria fiscalizar e coibir fazia “vista grossa” para a situação.

No Pará, por exemplo, os 12 anos de gestão tucana evidenciaram esse processo. Não se fazia concurso e enfileiravam milhares de pessoas nas “saias” do Estado, sem o mínimo espírito público.

Quando o MPT (Ministério Público do Trabalho) resolveu deixar a sua inércia de lado e fazer valer a lei, o embate estava formado. O MPT resolveu estipular um prazo que o Estado demita todos os temporários e nomeie quem deveria ocupar o cargo legalmente, através de concurso.

Só na Seduc, os temporários chegavam à casa de 12 mil pessoas. Muito destes trabalhando neste regime, há anos, sem qualquer incomodação. Uma farra com o dinheiro público, servindo de moeda de troca política.

No ano de 2007, o Ministério Público resolveu agir e acabar com essa imoralidade de nossos governantes. Cobrou do Poder Executivo que faça cumprir a lei e o que determina a Carta Magma do país.

A partir daquele momento os governantes teriam um prazo legal para destratar os temporários do quadro do Estado; promover concurso público, a fim de promover o ingresso das pessoas por esse critério e não mais pelo QI. Naquele momento dados desconcentrados indicavam que 30 mil pessoas estavam no Estado em regime temporário. Muitos há mais de dez anos. O que demonstra a incapacidade de gestão da máquina por parte, principalmente, dos tucanos.

Passaram 12 anos no poder, três mandatos, quase não promoveram concurso e, ainda, incharam a máquina com milhares de empregos e os chamados costumeiramente de “assessores especiais”, que no governo tucano passavam de quatro mil. Como a questão da contração de funcionários temporários tornou-se uma sina, que independe de governos, de partidos, o atual governo do Estado, do PT, segundo dados já contratou mais de dois mil assessores especiais, lotados a exemplo de outros governos na Governadoria. Há necessidade de tantos assessores? Creio que não.

No Portal da Transparência, aparecia pesquisa que só no Governo Federal, na Era Lula, encontra-se mais de 120 mil assessores. Um verdadeiro exército. No governo americano, não passam de 20 mil o número de contratações, seis vezes menos do que aqui.

Precisamos, de fato, repensar o Estado. Não entrando na questão do Estado mínimo ou do Estado concentrador, grande. Mas sim, com relação a uma reforma ampla, uma reestruturação, da implementação do espírito público, que tanto nos falta. Precisamos respeitar leis, acordos, por isso a nomeação dos concursados é uma questão de ordem, de dignidade, respeito e não de favor como muitos nos fazem pensar. Quem paga a conta são os milhares de temporários que ingressaram no serviço público, muitos por necessidade do próprio Estado em tê-los em seu quadro, mas que foram ficando por incompetência do mesmo.

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6

de
junho

Entrevista com o professor Bermann direto do blog do Azenha

Como de costume o jornal “O Liberal” em sua edição de domingo (06/06/2010) trouxe matéria sobre a Hidrelétrica de Belo Monte. No formato de entrevista o referido jornal colocasse a favor do empreendimento no rio Xingu, reforçando a necessidade da construção do barramento para o estado do Pará e para o Brasil.

Este blog já externou sua posição sobre Belo Monte, afirmando ser irredutivelmente contra a construção da Hidrelétrica pelos motivos já conhecidos: as inviabilidades técnicas, ambientais, sociais e econômicas do projeto. Não por acaso, o barramento na volta grande do Xingu se discute a mais de 30 anos.

A justificativa dos que defendem a construção de Belo Monte é que a usina trará desenvolvimento à região. Essa questão é complexa e não tão simples como fazem querer aparecer. Outro ponto sobre a defesa da construção de hidrelétricas é a que são energias limpas, sem maior dano ao meio ambiente, algo desmistificado por especialistas que comprovam o efeito danoso desse tipo de empreendimento ao ambiente.

Abaixo segue a entrevista realizada pelo blog do Azenha com o professor Célio Bermann, autoridade nacional sobre energia no Brasil. Boa Leitura.

O professor de pós-graduação em Energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP desmistifica os benefícios de o Brasil aproveitar o potencial energético dos rios da região Amazônica: “Belo Monte representa simbolicamente a possibilidade de transformar todo o territorio amazônico em um grande conjunto de jazidas de megawatts”.

Célio Bermann foi assessor do Ministério de Minas e Energia durante os dois primeiros anos do governo Lula e se afastou em desacordo com o que considera desvirtuamento da política do governo para o setor. Crítico assíduo do planejamento energético brasileiro, Bermann não só rejeita a construção de usinas hidrelétricas como a de Belo Monte, mas propõe uma nova direção de desenvolvimento econômico para o país.

Qual é a importância econômica da Usina de Belo Monte para o Brasil?

Bermann: A importância da usina deve ser medida pela sua capacidade de produção de energia, pelo tempo que a energia produzida estará disponível para o consumo da sociedade e pelos problemas de ordem social e ambiental que essa usina representa, inclusive sob o ponto de vista de custos. A importância econômica da Usina de Belo Monte para o Brasil é negativa, porque ela vai custar muito. O governo fala em 19 bilhões de reais de investimento, mas as empresas envolvidas na obra, na fabricação dos equipamentos, dizem que a obra não sai por menos de 30 bilhões. Os problemas sociais e ambientais, muitos deles, não têm custo financeiro.  Mas imagine a perda do valor cultural do rio Xingu, que é sagrado para as populações indígenas. E esse tipo de raciocínio não está incorporado na decisão de construir um empreendimento. A obra é superdimensionada, porque a quantidade de água para tocar a usina na capacidade proposta, de 11 mil MW (Itaipu produz 14 mil MW, para se ter uma idéia do tamanho da usina), estará disponível apenas três meses ao ano. Na época de estiagem, por exemplo, em setembro e outubro, a usina não vai produzir mais do que 1 mil MW. Então porque investir numa obra com essa dimensão se o retorno econômico/financeiro é baixo? Não é a toa que o capital privado desistiu de participar da construção.

E porque então construí-la? Qual é o interesse do governo se não haverá esse retorno?

Bermann: Eu vejo a obra de Belo Monte como um projeto de longo prazo. É preciso levar em consideração que mais da metade do chamado potencial hidrelétrico, para construir hidrelétricas no Brasil, está localizado na região amazônica, onde há problemas de ordens social e ambiental. O fato de ter esse potencial para a construção de hidrelétricas faz com o governo aponte para essa direção irreversível: a de construir essas usinas, custe o que custar. Porque isso? O que chama atenção, como sempre, é a perspectiva do apagão, de se ter falta de energia. Ninguém quer ficar sem energia elétrica. Então essa forma de propagandear, de alardear que vai ter apagão, faz com que se aceite usinas com essas características. Não é particularmente o governo Lula, porque essa obra está sendo pensada há 30 anos.

O problema é que o governo Lula vai ficar na história como aquele governo que decretou o fim das populações indígenas e da cultura na região do Xingu. Para responder o por quê dessa obstinação do governo, é porque se conseguirem validar a construção da usina de Belo Monte, todas as outras usinas vão se validar também, principalmente no critério de impactos socio-ambientais. A Balbina é conhecida como a pior concepção de hidrelétrica do mundo, porque ela está na planície amazônica, ocupa um reservatório enorme de mais de 2500 km2, para gerar 250 MW, sendo que a potência firme dela é de apenas 120 MW. Numa situação dessa, o critério lógico é abandonar o projeto. Isso não foi feito, na década de oitenta. De lá pra cá, aumentou o número de planos de hidrelétricas. Belo Monte representa simbolicamente a possibilidade de transformar todo o território amazônico em um grande conjunto de jazidas de megawatts. Embora frágil, com populações tradicionais que precisam ser respeitadas, populações indígenas que precisam ser consideradas, a perspectiva que Belo Monte aponta é de priorizar a geração de energia a partir das águas do rio Amazonas. E o resto? Bem, o resto é o resto.

O Brasil tem um papel de protagonismo internacional em geração de energia limpa. No caso das hidrelétricas, temos enormes reservas de água que podem ser vantajosas para o país. Não se deve aproveitar essas vantagens?

Bermann: O maior erro desta política energética que está sendo implementada é o fato dela se apoiar em inverdades. Uma delas é de que a energia hidrelétrica é limpa e barata. Ela não é. Estudos mostraram que Balbina, Tucuruí e Samuel, as três maiores hidrelétricas construídas na região amazônica até agora, emitem gases de efeito estufa mais ou na mesma proporção que usinas a carvão mineral. Isso pode parecer uma surpresa, mas nos primeiros dez anos de operação de uma usina da Amazônia, a matéria orgânica, a mata, ela apodrece porque a água a deixa encoberta permanentemente.  E o processo de apodrecimento é muito forte, acidifica a água e emite metano, que é um gás 21 vezes mais forte que o gás carbônico, principal gás do efeito estufa. Isso é conhecido pela ciência mas não é considerado porque não é de interesse de quem concebe essas usinas. O que interessa é a grande quantidade de dinheiro que vai ser repassado para as empresas construtoras de barragens, turbinas e geradores. O restante, o problema ambiental, as populações que serão expulsas, a cultura indígena que está sendo desconsiderada, isso não entra na conta.

Ainda não entendi porque construir essa usina se a energia é suja, cara e provoca todos esses impactos socioambientais. O Brasil precisa dessa energia ou não?

Bermann: Se o Brasil persistir nessa direção de desenvolvimento econômico, sim. Mas é isso o que precisa ser mudado. No Brasil, 30% da energia gerada é gasta por empresas que consomem muito: fábricas de aço e de alumínio, principalmente. Todas as empresas presentes na Amazônia, e que usam a energia de Tucuruí, são produtoras de alumínio, que é exportado. Então é essa lógica que está por trás disso. Fala-se em crescimento econômico mas a fabricação industrial é direcionada para essa produção e para a exportação.

Seguindo essa lógica, fatalmente o Brasil precisará de energia. O problema que precisa ser aberto para a população brasileira é se a gente quer um crescimento econômico com esse perfil. Ou se com a mesma energia disponível, não podemos produzir produtos que contenham mais tecnologia, mais mão de obra, que tenham maior valor agregado e aí sim, exportá-los. É o que o Japão faz. Na década de 80, todas as indústrias de alumínio foram fechadas. O Japão passou a importar o alumínio, transformá-lo em chips, para então vendê-los com um valor 20 vezes maior do que ele pagou pelo alumínio utilizado. É possível crescer economicamente gastando menos energia, se diversificarmos a nossa matriz energética para que ela não priorize a hidroeletricidade, como ela vem sendo priorizada hoje.

É falsa a idéia de que ela é mais barata do que as outras. Colocado na ponta do lápis, esse custo de 30 bilhões da usina de Belo Monte será financiado pelo BNDES, com o nosso dinheiro, porque as empresas privadas não quiseram entrar. O banco público vai bancar 80% dos investimentos e pagar empresas privadas para construir a usina. E a energia elétrica, muito provavelmente, vai servir para ampliar esse perfil industrial eletro-intensivo. Vai vir alguma coisa para o consumidor residencial brasileiro, mas poderíamos conseguir essa energia diversificando as fontes, não tendo essa idéia de privilegiar grandes blocos de consumo, como esse tipo de indústria faz. A gente tem, na economia brasileira, demonstrações de que existem setores que atendem ao requisito de menor consumo de energia, maior tecnologia e maior incorporação de mão de obra. Então porque não insistir nessa direção?

E quais são esses setores?

Bermann: Por exemplo, a fabricação de aviões. Dentro da pauta de exportação brasileira, é o que mais se sobressai, em termos de receita que advém da venda desses equipamentos. Não dá para persistir na idéia de um país da dimensão do Brasil, com as necessidades sociais que tem, como exportador de soja, de café, de açúcar, de etanol…Exportar aço, celulose, alumínio, é restringir a capacidade que o conhecimento brasileiro tem, a capacidade de trabalho que o país tem de consumir energia de uma forma mais inteligente, de uma forma que degrade menos a força de trabalho de sua gente e o meio ambiente.

Você acha que a sociedade brasileira está a par do que está acontecendo na Amazônia?

Bermann: É fundamental que a discussão das usinas hidrelétricas da Amazônia seja disseminada para que as idéias que hoje justificam essas obras possam passar pelo crivo da sociedade, e não apenas de especialistas, e aí eu me incluo, que mostram seu ponto de vista cientifico do por quê condenar o empreendimento dessas obras. O projeto brasileiro é de construir 28 usinas na região amazônica. Hoje tem quinze, mas de porte são Tucuruí, Balbina e Samuel. Desse conjunto que se pretende, mostra que 80% da capacidade de geração de energia elétrica prevista até 2020 vai vir de 28 usinas hidrelétricas da Amazônia.

E a questão permanece: a que custos sociais e ambientais? Vale a pena? A gente não vai conseguir substituir a necessidade de energia de uma indústria de alumínio com o vento, ou com energia solar. Mas ela consegue suprir de uma forma diversificada parte da necessidade de consumo da população, de atividades de indústria de ponta, ou de comércio e serviços. Não devemos permanecer nessa dependência de grandes usinas hidrelétricas que custam caro, estão numa distância muito grande do consumo e representam do ponto de vista socio- ambiental, pesados óbices para um país como o Brasil aumentar a renda, a geração de emprego e melhorar a qualidade de vida da população.

A renda no Brasil é absurdamente concentrada e os esforços recentes nessa direção ainda são pouco significativos frente à dimensão que hoje se estabelece. Metade da população ganha a mesma renda que 5% dos brasileiros. Isso mostra porque temos problemas de segurança, baixa escolaridade, baixa capacitação de mão de obra para se qualificar e se inserir no mercado de trabalho. É um conjunto de problemas que se verifica e que poderiam ser resolvidos a partir dessa redifinição do que se quer de um país e como a energia pode contribuir numa qualidade de vida mais elevada. O problema é que estamos muito longe dessa direção.

Quais são as alternativas de geração de energia?

Bermann: Para pequena escala serviria energia solar, dos ventos, dos resíduos agrícolas. A política energética atual tem incorporado essas alternativas de uma forma muito tímida, deveria ser multiplicada na sua escala. Alegam que essas energias alternativas são caras mas se a gente considera a hidroeletricidade com todos os problemas que eu apontei e com todos seus custos, elas passam a ser viáveis, e passam a potencialmente poder compor a cesta energética brasileira. Existe uma falsa questão na hidroeletricidade quando ela é comparada aos combustíveis fósseis e não tem uma vírgula sobre isso no projeto de Belo Monte.

Eu estranhei o espaço que a usina de Belo Monte tem tido na mídia, nunca vi a imprensa defender tanto o meio ambiente. Você acha que existe uma questão política por trás dessa discussão?

Bermann: Eu já estive muito próximo do governo Lula. Participei dos primeiros dois anos do governo como assessor de do Ministério de Minas e Energia. E me afastei por ver a direção que o governo Lula tomava e a sua forma de assegurar governabilidade, se aliando ao PMDB, particularmente à figura do senador Sarney. Isso implicou um redirecionamento político, inclusive nesse comportamento em relação às usinas hidrelétricas. Todo o staff hoje das empresas públicas elétricas é de homens do Sarney. Então a forma da oposição combater politicamente a obra de Belo Monte é em função do que é evidente, dos custos, dos problemas socio-ambientais, para com isso alimentar a crítica, mas que é de fundamento político, à obra. Eu nao vi ainda a oposição dizer que não construiria Belo Monte. Não vi o candidato de oposição se referir à usina de forma incisiva. Então eu vejo que o comportamento da mídia em relação à Belo Monte, que poderia resultar no envolvimento da sociedade com relação à usina e criar condições para que o governo revesse a decisão, foi usado muito na atitude de jogar pedra no telhado de vidro, quando eu suponho que seria o mesmo telhado se tivéssemos outro governo.

Um país subdesenvolvido pode ter um desenvolvimento sustentavel? Quer dizer, um país com tantas necessidades sociais quanto o Brasil pode pensar nesses termos a longo prazo?

Bermann: Deveria. Mas na construção de hidrelétricas, não se pensa no meio ambiente a longo prazo. Enquanto houver minérios na Amazônia, vamos aproveitar. Uma usina hidrelétrica dura até 100 anos. Nos EUA, quando as hidrelétricas já não funcionam mais, estão tentando recuperar a vida do rio, porque a vida do rio morre com a usina hidrelétrica. A água que corria agora fica parada, aumenta sua acidez, diminui o oxigênio, no lago começam a formar macrófitas (algas). São evidências de que a coisa não está indo no bom caminho se a gente pensa a longo prazo. A sociedade não está informada, não participa do processo decisório. Quem participa são essas pessoas que eu mencionei, com suas teias de interesse já definidas. O deputado que hoje está na frente de uma empresa de geração de energia elétrica pública, ele garante com esse tipo de articulação, caixas de campanha para a próxima eleição. Eles embolsam o dinheiro indiretamente, o que torna impossível de registrar, documentar e ser uma peça importante num processo judicial de apuração de responsabilidades.

O Delfim Netto escreveu coluna na revista CartaCapital argumentando em defesa da construção da usina de Belo Monte. Segundo ele, os não índios na região se beneficiariam com a criação de emprego e a movimentação da economia. Termina a coluna citando uma frase que um jornalista publicou no Estadão : “As questões ambientais ou indígenas são vistas pelos locais como argumentos de quem tem sobrevivência garantida. Não é o caso de boa parte dos 60 mil habitantes de Altamira”.

Bermann: A afirmação do Dep. Delfim Neto apenas confunde. A sobrevivência das populações tradicionais está e sempre esteve em permanente ameaça. A população urbana de Altamira tem vários problemas que não são enfrentados pelo município ou pelo estado. A ausência de políticas públicas acaba conduzindo a população carente a acreditar que a usina seria a redenção para a região. Como já havia sido, décadas atrás, a construção da Transamazônica.

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3

de
junho

Um Eldorado chamado Pará. Para quem?

Com certo atraso o articulista teve acesso a publicação da revista Valor Econômico em sua edição de abril, especial sobre o estado do Pará, para que se possa analisar o futuro do estado e as expectativas de investimentos nos próximos anos.

Tirando abordagem publicitária, há importante raio-x sobre os empreendimentos atuais e as intervenções futuras. De forma geral, calcula-se que até o ano de 2014 os investimentos no Pará somarão mais de 50 bilhões de dólares. Na somatória desta astronômica quantidade de recursos estão investimentos em infraestrutura, parque industrial e empreendimentos empresariais.

Esse cenário coloca o Pará entre os maiores entes federativos no que diz respeito a futuros investimentos privados e públicos. No campo público, o Governo Federal, investe no Pará através do PAC 1 e 2, que compreende as eclusas de Tucuruí, as rodovias federais Cuiabá-Santarém (163), Transamazônica (230), a duplicação do Porto de Vila do Conde, em Barcarena, estão entre as principais intervenções de infraestrutura no estado pelo poder público.

As ações privadas concentram-se principalmente no custeio à infraestrutura como o porto privativo de Espadarte, no litoral nordeste do Pará, na cidade de Curuçá, empreendimento da MMX, mineradora que pertence ao bilionário brasileiro Elki Batista.

A revista evidencia a necessidade e o caminho sem volta com relação ao processo de verticalização de nossas riquezas. A siderúrgica da Vale em Marabá é passo importante para a criação de uma metodologia empresarial e industrial, buscando verticalizar os futuros empreendimentos, exterminando o espírito colonial que o Pará se submete há décadas.

A questão central é: como transformar esse eldorado todo em desenvolvimento social? Melhorar o IDH paraense? Tornar a renda per capita maior, distribuir essa riqueza em melhor condição de vida a todo paraense?

Essas questões são os maiores “x” a serem resolvidas por nossas autoridades sobre o futuro do estado e seus mais de sete milhões de habitantes. Não podemos admitir que a potencialidade e as vocações econômicas do estado continuem a deixá-lo entre os últimos entes federativos brasileiros.

Na última década o Pará foi o quarto maior estado exportador do Brasil, o segundo em minério do país, de longe o maior da Amazônia Legal. Por outro lado está entre os últimos em desenvolvimento social, mantendo o pior IDH da região.

O cruzamento dos dados referentes ao potencial econômico do Pará e o retorno social desses projetos demonstra bem o modelo de desenvolvimento que praticamos que perverte uma distribuição melhor da renda.

Aliado a isso o péssimo quadro educacional e de baixa qualificação profissional, fazendo com que os melhores salários fiquem nas mãos dos que vem de fora e não com os paraenses.

O Pará deve obrigatoriamente tirar proveito de suas potencialidades: mineral, energético, agrícola, da pecuária e pesqueira, transformando essas ações em desenvolvimento propriamente dito aos seus habitantes.

Fugindo da retórica da terra das oportunidades, do Eldorado, este restrito a pequenos grupos, enquanto a maioria colhe os ônus de um modelo de desenvolvimento concentrador e perverso. Ainda há possibilidade de mudança. Os primeiros passos foram dados, resta continuar na direção da verticalização, pelo menos esse é o melhor caminho, menos traumático para a região e seus quase 30 milhões de habitantes.

1

de
junho

Entrevista com o cientista político Emir Sader no blog do Zé Dirceu

O blog reproduz mais uma entrevista, colhida do site do ex-ministro petista, José Dirceu, que entrevistou um dos intelectuais de esquerda mais respeitado no Brasil, Emir Sader.

Pelo excelente conteúdo, cabe ao blog e sua própria forma de atuação expor a seus leitores. Atualmente, Sader vem criticando a forma de como a esquerda se posiciona no Brasil e no mundo. Tratou também das eleições em outubro no Brasil, o papel das elites e da própria esquerda. Por último abordou o futuro do Fórum Social Mundial.

Boa leitura.

“É hora da esquerda voltar a pensar estrategicamente”

http://juventude77.files.wordpress.com/2009/10/emir.jpg

O alerta, também uma advertência, é dado pelo cientista político Emir Sader em sua análise sobre a atual conjuntura brasileira face às eleições de outubro e sobre os oito anos de um governo de esquerda no país. Professor de Política na UNICAMP e de sociologia na UERJ -  onde coordena o Laboratório de Políticas Públicas - Emir é um dos principais colaboradores do portal Carta Maior, referência do pensamento de esquerda no país e uma das iniciativas do primeiro Fórum Social Mundial ocorrido em Porto Alegre (2001).

Autor de vasta bibliografia sobre o Brasil e a conjuntura internacional, Emir coordenou recentemente, junto com o assessor de Relações Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, o livro “Brasil entre o passado e o futuro”, no qual numa coletânea de vários artigos são analisadas as transformações vividas pelo país nos oito anos de governo Lula. Nesta entrevista, além de compartilhar com os leitores deste blog essas considerações, o sociológo também faz uma abrangente análise da política externa brasileira, apontando sua importância para o futuro.

Emir também traça um panorama da atual situação política brasileira, considerando os avanços e retrocessos da esquerda e da direita, além de uma análise sobre o papel do Estado e da dimensão pública na vida em sociedade. Como bom sociólogo, atento às eleições de outubro e às possibilidades de continuidade da esquerda no poder, Emir também aponta os entraves que ainda temos a enfrentar na construção de uma sociedade mais cidadã, plural e democrática.

[ Zé Dirceu ] Emir, para começarmos nossa entrevista na ordem do dia, como você analisa o acordo conseguido pelo presidente Lula nesta semana com o Irã?

[ Emir Sader ] Uma extraordinária conquista que confirma a tese de que um país como os EUA, que possuem o maior arsenal nuclear, não tem força moral para tentar impor limitações às pesquisas nucleares de outro país. Uma conquista digna de um Prêmio Nobel da Paz, que só é subestimada mesmo pelo governo norteamericano e pelos corvos da imprensa brasileira, para os quais não importa a paz no mundo, contanto que possam tentar impedir a vitória da candidata de Lula, Dilma Rousseff, à presidência do Brasil.

[ Zé Dirceu ] O presidente Lula conseguiu um acordo com base em proposta da AIEA e mesmo antes de fechá-lo, os EUA já diziam que era vago e que as garantias do Irã eram insuficientes. Agora, fechado o acordo, mesmo assim, anunciaram que levarão em frente o plano de aplicação de sanções contra o Irã. Por que os EUA não respeitam nada acordado desde que não seja o que eles querem?

[ Emir Sader ] É uma atitude de absoluta má fé, a mesma que os EUA e a Grã Bretanha tiveram há poucos anos, na questão do Iraque. Revela sua disposição de impor sanções à força, independente do cumprimento das exigências da Agência da ONU. Com o Iraque se deu algo muito similar: conforme as exigências eram cumpridas,  desqualificava-se a palavra de quem as dava, em nome da suposta existência de armamentos de destruição em massa que posteriormente se revelaram realmente inexistentes.

[ Zé Dirceu ] Em quais aspectos podemos afirmar que a política internacional do governo Lula mudou e quais as conseqüências disso para nosso país?

[ Emir Sader ] A mudança na orientação da política internacional não foi só na política externa, mas ela significou a soberania internacional e possibilitou a política econômica que a gente tem. Trata-se da autosuficiência. Criamos uma margem de jogo [manobra] significativa para o governo. Antes, o tema central era a aliança com o centro do sistema capitalista no mundo. Isso mudou. Frente à crise econômica internacional, o centro capitalista não se recupera, mas o Sul sim. Antes, nós chorávamos quando estávamos em crise, não porque queríamos que eles estivessem bem, mas porque sabíamos que a demanda deles nos era essencial.

Hoje vivemos um tal multilateralismo econômico que é possível o Sul do mundo ter uma política própria. Infelizmente, após a crise, não saímos com propostas próprias para ela. Acho ruim o fato de que no G-20, Brasil, Argentina, México, China e outros tenham saído separados. Nós vamos tentar democratizar as propostas deles. Na realidade, o que precisávamos era forjar a força política do Sul. Temos dificuldades porque os países do Sul não são exatamente iguais, mas de qualquer maneira, essa questão é o que mudaria mais significativamente a cara do mundo. Requer um esforço para fortalecer o multilateralismo econômico com as políticas que temos.

Em relação ao Brasil, estamos vivendo as conseqüências de termos mudado o nosso perfil internacional. A mudança é óbvia: éramos um país totalmente subserviente e hoje não. Nossa imagem internacional nova é oposta a isso.

[ Zé Dirceu ] Em relação à integração latinoamericana, como você analisa a iniciativa da Unasul e o MERCOSUL com seus impasses e oportunidades?

[ Emir Sader ] O MERCOSUL está um pouco embananado pela dificuldade da Venezuela consolidar sua entrada, mas dessas iniciativas todas, eu gostaria de destacar uma outra que acredito ser chave: o Banco do Sul. Nós precisamos partir para a moeda única - as moedas nacionais vão naufragar, porque o dólar está enfraquecido. Temos que avançar nessa articulação em torno de uma moeda única que tenderia para um Banco Central único, mas isso é mais complicado. É um ponto importante - não digo de não retorno - para consolidar os avanços todos, com a expressão que tem a questão monetária, o que ela mede. O alcance do Banco do Sul seria significativo e poderia ser um passo econômico seguinte da integração regional para nós.

[ Zé Dirceu ] Para fecharmos essas questões sobre política internacional, qual sua opinião sobre Cuba hoje?

[ Emir Sader ] Cuba está numa dificuldade séria porque o socialismo chegou na periferia. Então é fácil dizer de boca “precisamos saltar etapas”, mas é preciso a base material para saltá-las. O que a Rússia fez? Desapropriou os camponeses na marra, deu um salto na industrialização fantástico. Portanto, Cuba precisa dar o salto econômico e achar a acumulação socialista primitiva, ter as bases materiais e criar uma sociedade avançada. Trata-se de um problema estrutural.

[ Zé Dirceu ] Voce acaba de lançar “Brasil entre o passado e o futuro”. Quais aspectos o Brasil se aproxima do futuro e em quais ainda se mantém no atraso?

[ Emir Sader ] O livro foi organizado junto com o Marco Aurélio Garcia e publicado pela Fundação Perseu Abramo. Eu digo que o Brasil se aproxima do futuro por uma política internacional que aponta para um mundo multipolar e uma aliança dos países do Sul. Já o atraso é representado pela hegemonia do capital financeiro, o modelo do agronegócio e a ditadura da mídia privada. São estes os três obstáculos que nosso país precisa romper para sairmos definitivamente do atraso.

[ Zé Dirceu ] Quais as questões fundamentais a enfrentar no próximo governo?

[ Emir Sader ] Essas três primeiras que citei. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a nova política econômica do governo Lula, de alguma maneira, deslocaram o peso do capital financeiro. Mas ele ainda é hegemônico no país. Uma expressão disso é a própria independência do Banco Central (BC). O Brasil tem a taxa de juros mais alta do mundo, inclusive acabou de subi-la. Objetivamente, precisamos criar e fortalecer as condições de investimento do capital produtivo para evitar essa regra do jogo que é absolutamente cruel.

Em segundo lugar, tenho clareza que não dá para eliminar o agronegócio, os transgênicos - até porque eles chegam às pequenas e médias propriedades do campo. Mas é preciso fortalecer enormemente a economia familiar e tudo o que signifique a autosufiência alimentar. Não tem sentido o Brasil continuar gastando alimento com a maior quantidade de terras agricultáveis no mundo. Ao mesmo tempo, temos a questão da democratização e do acesso à terra, aumentar o peso de quem produz no mercado interno e gera emprego. Isso é importante.

Terceiro, quebrar essa hegemonia de quatro ou cinco famílias que forjam a opinião pública no Brasil controlando a imprensa. Último e quarto tema é promover uma reforma política que possibilite a representação transparente da cidadania nas instituições políticas do país.

[ Zé Dirceu ] Como você avalia a situação da esquerda nesse fim do segundo mandato de governo Lula? O que aprendemos nesses oito anos?

[ Emir Sader ] A esquerda tem uma oportunidade extraordinária de ganhando [as eleições de outubro] derrotar uma geração da direita e abrir um espaço de crescimento formidável. Desde a crise de 2005, nós sobrevivemos pragmaticamente. Não tivemos forças para abrir caminhos, mas avançamos porque eles (direita) são frágeis. A OMC é muito frágil em relação à integração regional. O ajuste fiscal é muito frágil em relação às políticas sociais. Então, agora, temos que fazer uma reflexão mais objetiva: que Estado a gente quer? Que sociedade a gente quer? Que modelo econômico a gente quer? Com isso, enfrentaremos obstáculos maiores.

A vantagem é que esperamos uma grande vitória nossa e uma grande derrota da direita. É hora da esquerda voltar a pensar estrategicamente. Não deixamos de pensar, mas avançamos nas margens do possível. Temos que considerar que o cenário internacional não será tão positivo quanto foi antes. Teremos enfraquecimento dos aliados regionais e possivelmente metade do mundo continuará conservador. Então, temos que fazer uma reflexão mais forte. Mesmo aliados nossos, como a Venezuela, terão dificuldades razoáveis. Precisamos de uma reflexão no sentido estratégico para fazermos um grande avanço, mesmo porque a direita estará muito golpeada, desmoralizada. Temos que pensar como articulamos essa saída do neoliberalismo.

Que Estado é esse? Quais transformações desse Estado e da esfera pública são necessários? O socialismo é uma grande universalização dos direitos, é a grande esfera pública. Então é por aí que deveríamos pensar o futuro. Hoje, o Estado tem mais estruturas de controle do que de execução. Isso desbloqueia a coisa. Na realidade, a direita coloca o debate sempre entre agente estatal versus privado. Isso é uma sacanagem.

[ Zé Dirceu ] Como eles não têm propostas, nem alternativas…

[ Emir Sader ] Eles colocaram para a sociedade um dilema completamente equivocado que é a idéia do estatal versus privado. Isso é falso. O nosso modelo não é estatal, é esfera pública. Não vamos defender um Estado que pode estar financiado e privatizado. A polarização é esfera mercantil versus esfera pública. Nós queremos tirar do mercado, universalizar direitos e reorganizar o Estado em torno da esfera pública. Criar o espírito do servidor público, algo anti-mercantil que é justamente a fraqueza deles [da direita]. Então, essa reforma do Estado tem que servir para reorganizar o Estado em torno dos direitos, da cidadania, da esfera pública.

[ Zé Dirceu ] Qual a sua análise sobre a direita brasileira hoje?

[ Emir Sader ] Eles têm o poder econômico e o poder da mídia. Há uma margem de gente que vota no Serra e outra no Lula. Precisamos nos atentar para outro fato: em São Paulo e rumo ao Sul do país existe um antipetismo que precisamos entender e desarticular. E antipetismo é voto para tucano. Há, evidentemente, outros votos que não deciframos. Por exemplo, uma margem de pessoas que não sabem a diferença entre votar em um candidato do Lula e em um candidato tucano. Simplesmente, não sabem.

Portanto, a derrota será um desespero para a direita. Posso até pensar que caso isso aconteça, a imprensa começará a avaliar algumas coisas, mas até agora isso não aconteceu. De qualquer forma, eles estão em uma situação limite.

[ Zé Dirceu ] Faltam cinco meses para as eleições, é cedo para conclusões, mas pelo quadro que temos hoje Dilma vence a eleição de outubro. Nunca houve condições tão favoráveis para um candidato do governo vencer e ela já ultrapassa Serra nas pesquisas.

[ Emir Sader ] Conforme as pesquisas avançam, diminui o grau de indecisos e aumentam em proporções crescentes os que expressam desejo de votar no candidato do Lula. Mas ainda manifestam voto pelo Serra, vão mudando sua definição, vai se desenhando um quadro muito favorável à vitória da Dilma. Pode-se esperar atitudes ainda mais desesperadas da direita, diante da iminência de uma vantagem da Dilma que se torne insuperável.

[ Zé Dirceu ] Como você avalia nossa imprensa e as tentativas de democratização da mídia, toda essa movimentação e debate sobre a comunicação no país?

[ Emir Sader ] Os modelos de esquerda de imprensa alternativa até agora não funcionaram. O modelo do Peru foi simbólico, significativo e deu errado. Estatizou tudo e entregou para o sindicato. Nos não temos um modelo ainda. Ao nos referirmos à TV Brasil (a TV pública do país), nós dizemos o que ela não é. Estou pensando mais em uma rede pública de TVs alternativas, rádios comunitárias, blogs e outros elementos. Nós sabemos o que não deve ser, mas não sabemos ainda como é, como queremos, como formamos a mídia representativa.

A (mídia) estatal deve existir. O presidente Lula, por exemplo, tem o direito e a obrigação de falar e prestar contas e discutir com a sociedade brasileira. Agora, temos que ter a rede pública também. Elas são elementos essenciais para organizar a massa crítica. A massa pobre que hoje é sujeito econômico precisa ser sujeito político também. Ela precisa de meios de comunicação para se informar e produzir. Ela nem sabe que é preciso se expressar. Hoje, para você se organizar, não tem meios. A imprensa atual é desorganizadora. Então, a resolução da democratização dos meios de comunicação tem a ver com a organização da base social. Temos que encontrar as formas não só de disputar a opinião pública, mas também a popular, das bases.

[ Zé Dirceu ] E usar, por exemplo, o poder que os sindicatos têm de comunicação.

[ Emir Sader ] E o das igrejas…

[ Zé Dirceu ] Qual sua avaliação da Confecom - 1ª Conferência Nacional de Comunicação? Ela foi importante?

[ Emir Sader ] Foi mais importante do que imaginávamos supondo o boicote deles [dos donos dos meios de comunicação que se recusaram a participar do evento e se retiraram de sua organização ainda antes da elaboração da pauta do encontro]. Eles achavam que iam desarticular, mas criou-se uma opinião pública e mobilização contra eles, de tal maneira que o governo federal agiu melhor do que a gente imaginava.

[ Zé Dirceu ] Os barões da mídia não esperavam que o evento fosse se realizar. Formou-se uma corrente forte de opinião a favor, o que acumulou mais gente.

[ Emir Sader ] Exatamente.

[ Zé Dirceu ] O Forum Social Mundial completou 10 anos. Como você o vê um década depois?

[ Emir Sader ] Foi muito importante na fase de luta e resistência, mas perdeu o bonde na fase de disputa de hegemonia. A supremacia das ONGs fez com que o Fórum se tornasse um lugar de intercâmbio de experiências e não de propostas. Mas o lugar para discutir relação do movimento indígena equatoriano com o Rafael Correa (presidente do Equador) seria lá. O MST e o Lula seria lá. Então, não sai nada. Os presidentes têm que se reunir paralelamente. E essa ausência de Estado, de política e de poder no FSM faz com que ele gire em falso. Claro que lá está a sociedade disputando hegemonia, mas o grande evento do FSM é aquele dos cinco presidentes.

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