1
de
junho
Entrevista com Reinaldo Carvalho. Parte I
Entrevista: Reinaldo Carvalho.
Formado em Engenharia Civil e Direito. Possui mestrado em Planejamento do Desenvolvimento, especialista nas áreas de: geografia da Amazônia e Hidrologia aplicada. Exerceu a docência no CEFET e trabalhou em diversas secretarias estaduais e órgãos federais de planejamento e gestão.
Em 1967 foi diretor de cultura da Juventude Católica. Presidente do INTERACT CLUB do Colégio Estadual AUGUSTO MEIRA. Vice-Presidente do Diretório Acadêmico da Escola de Engenharia - UFPA. Em 1981 - Militância polÃtica clandestina no MR - 8. No ano de 1982 - Rompimento com o MR-8 e aproximação ao PCB (ainda na clandestinidade). Em 1983 - Eleito Secretário de Organização do PCB do Estado do Pará.
Em um bate-papo agradável, o entrevistado, relatou momentos de sua vida, sua inserção no movimento estudantil e na vida polÃtico-partidária, de sua formação e atuação como intelectual e militante marxista. Falou também, de assuntos recorrentes como: a crise financeira, a posse de Barack Obama, o novo presidente dos Estados Unidos, à esquerda e a América Latina.
Falê-me um pouco sobre a sua infância e adolescência, sua formação e militância polÃtica.
R: A minha infância se deu no subúrbio de Belém. Eu não nasci em hospital, nasci em casa, naquilo que era um dos bairros operário, um dos principais daqui da cidade. Naquela época tinha o Reduto onde estavam localizadas as fábricas, e o principal meio de transporte terrestre que ligava Belém ao interior, em particular a zona bragantina, conhecida como Estrada de Ferro de Bragança. Então eu nasci na Rua Nina Ribeiro, que é a segunda rua do bairro de Canudos, onde nasci e me criei. A minha infância se deu toda ela em torno das peladas que a gente jogava na rua e as jogadas na Igreja de Queluz, que por sinal a principal Igreja de Queluz hoje é controlada pelos padres dominicanos, tendo Santa Rita de Cássia como padroeira, embora a igreja continue sendo de São José de Queluz. Nós ajudamos a construir aquela igreja com as próprias mãos. Cavamos os alicerces, carregamos tijolos, etc.
A minha infância se deu ali, naquele ambiente, um bairro ferroviário. Na realidade, o bairro de Canudos até a Avenida Cipriano Santos, era de fato um bairro ferroviário. Todas as famÃlias giravam em torno da Estrada de Ferro de Bragança. Naquela época eu não tinha consciência disso não, eu vivia intensamente a estrada de ferro. Nossas brincadeiras eram na rua, o que nós chamávamos na época de soldado e ladrão e, elas se davam em torno dos igapós da vacaria do seu “Alberto”. Naquela época era uma coisa pai dègua. Dessa época, dos meus colegas de infância, apenas eu, filho da professora de datilografia e de um militar, o meu colega, filho do comerciante, dono da taberna, apenas nós dois conseguimos ter nÃvel superior. Os outros nenhum deles chegou a ter nem o segundo grau e nem sei se chegaram a concluir o fundamental. Por exemplo, eu tive um colega, filho de um sapateiro, que morreu de overdose com um flanelinha na Batista Campos. Tive um outro que nós chamávamos de “firoula”, que só depois fui entender por que era chamado assim, ele desmaiava de fome. Estávamos jogando bola, quando de repente… O “Firoula” caia. Ele era filho do carvoeiro, que vendia carvão aqui no mercado. Depois tinha um outro colega, que nós o chamávamos de “Curfino”, era o Pedro. Foi ser soldado da policia e pirou, porque tinha que dar pancada nos presos, foi aposentado prematuramente como doido. Um outro colega pegou hansenÃase e foi internado em Marituba. Então era nesse contexto de pessoas muito desfavorecidas que cresci. E eu tinha o privilégio de ter um pai que tinha um emprego, embora tenha ocorrido da PolÃcia Militar do Estado do Pará, ter passado 23 meses sem pagar os salários. Era uma realidade social (cinqüenta e cinco anos atrás) muito difÃcil. Então esse foi o meu “caldo” de consciência polÃtica, a partir dessa base de vivência de dificuldades, convivendo com pessoas muito pobres. Eu almoçava e jantava, mas tinha dias em que eu não tinha almoço também. O papai perdeu o pai com quinze anos, a mãe virou prostituta e ele se fez por ele próprio, terminando a vida como coronel da PolÃcia Militar, depois de ter sido soldado, cabo, sargento, sendo oficial superior só com o primeiro grau. A minha vida na infância era essa e mais uma fervorossidade católica muito grande, eu cheguei a pensar em ser padre com seriedade e comungava diariamente, ajudava a missa na igreja, participando ativamente. Essa relação evoluiu para o grêmio cultural, e ai, sendo eleito diretor cultural do grêmio. Como era bom aluno e papai queria me dar uma educação esmerada, ele cometeu um erro de me matricular no Colégio Nazaré. Ai era muito difÃcil, pois na época o Colégio Nazaré era muito mais elitizado do que é hoje. Naquela época o Nazaré era só masculino e muito elitizado. Naqueles anos só tÃnhamos o Nazaré e o colégio dos padres salesianos, o Colégio do Carmo. Papai deveria ter me colocado no colégio do Carmo, pois era mais compatÃvel com o nosso nÃvel de renda. Lá no colégio Nazaré foi muito complicado, pois lá, me tornei rebelde e revoltado, pois eu vivia em dois mundos bem distintos. Ai eu comecei a enxergar a hipocrisia da Igreja. Essa convivência foi me dando uma visão de dentro da Igreja Católica, que me fez refletir até sobre a questão da religiosidade em si. Ai começava a questionar a própria relação de Deus. Quer diabos é isso!? Por que se Deus existe, há tanta segregação no mundo. E por que os padres comem tão bem e o resto do pessoal se dana, como é que fica essa história? Então a minha infância e adolescência se deram dessa forma. Mas o nÃvel de consciência polÃtica mesmo se deu a partir do momento em que eu fui eleito presidente de um clube de serviço, conhecido como International Action Club, promovido por Rotary Clube. Nesse momento a ditadura militar acabou com os grêmios nos colégios, e ai, passou um momento de transição antes que os militares passassem uma outra legislação criando os chamados centros cÃvicos. Nesse momento ocorreu um vazio, não havia sido criada a chamada OPSB, que era a disciplina Organização PolÃtico Social Brasileira, sendo ministrada nos três nÃveis de ensino. Esse vazio foi aproveitado por grupos de teatros e outras organizações. O Rotary entrou nessa jogada criando os Interact Club. Foi criado o do Souza Franco e o colega nosso que morreu prematuramente, o Eliazar Souza, com 36 anos de idade. Ele tina uma inteligência enorme, um camarada de um potencial muito grande. Foi filho do Orlando Souza, aquele delegado que organizava o CÃrio. Então o Eliazar fundou o Interact Club do Augusto Meira. Problema, Jarbas Passarinho, tinha criado o Augusto Meira para fazer contra-posição ao Paes de Carvalho, por que era lá que estavam as elites que se contrapunham ao governo militar. Lá estavam à s elites da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e da UAP (União Acadêmica Paraense). Os universitários regressos da UNE (União Nacional dos Estudantes) começavam a atuar na UAP, e a elite intelectual estava concentrada no Paes de Carvalho. O Jarbas Passarinho quis dar um golpe no Paes de Carvalho criando o Augusto Meira. E lá se instaurou um regime filho da puta, colocou-se três diretores que de fato apenas um deles era educador, os outros eram todos os pau mandado. Um deles era chamado de “papaléo” era casado com uma auxiliar direta do Jarbas Passarinho, na época do Ministério da Educação, e na época que também Edson Franco andava por lá. O Interact do Augusto Meira se tornou um instrumento anti-ditadura militar. Eu fui o primeiro presidente, e isso me marcou decisivamente a minha vida. Nesse momento eu passei a ter uma visão internacionalista já a partir daquela época. (RP) Então você considera que naquela época teve inicio o pontapé de tua militância… Repara bem uma coisa! Tem que separar bem as coisas. A militância naquela época se dava de duas formas: por espontaneidade ou era organizada. A minha militância organizada ainda que na clandestinidade, se deu em 1980. (RP) dezesseis anos depois do inÃcio da ditadura… É isso ai. Nesse perÃodo todinho, eu fui lÃder estudantil no Augusto Meira, inclusive teve um marco histórico lá, pois nós fizemos à primeira greve secundarista do Pará depois da tomada das universidades. Eu não me recordo o ano exatamente, mas acho que foi em 1968 em que à s universidades foram tomadas aqui no Pará. E nós fizemos uma greve, na qual eu liderei essa greve, que ficou conhecida nas páginas dos jornais como a greve do “cadarço”. Só que um filho da puta resolveu fazer um cartaz enorme e escreveu cadarço com “ç” sem o “r”, ai o Liberal solta a manchete: greve do “cadaço”, e ai colocaram em baixo uma sublegenda dizendo: “Bem que os alunos em vez de ficarem fazendo greve poderiam estar estudando a lÃngua portuguesa”. Então acho que foi ai que começou a minha consciência polÃtica. Ela foi se dando da constatação da realidade mesmo. Veja bem, eu morava em Canudos e estudava no Nazaré, ai eu saia do Nazaré para pegar ônibus na Gentil com a Quintino em na minha saÃda era justamente a hora que o meu tio passava descalço todo maltrapilho com um tabuleiro na cabeça e eu de uniforme do Nazaré, ai o meu tio atravessava a rua quando me via, com vergonha. Eu comecei a ver isso ai, quando eu ouvia o grito dele, eu conhecia o grito dele, ai eu passava para o outro lado (RP) Aquela farda não te causava um desconforto? De estar com a farda? O desconforto que me causava era que o papai comprava caqui militar e mandava fazer as minhas calças desse material, e tinha uma coloração diferente o resto do pessoal do Nazaré, pois eles compravam lá mesmo, pois não era vendido em outros lugares. O caqui que eles compravam só durava um semestre, no outro semestre todo mundo estava de caqui novo, e o meu ia até o final do ano. Quando tinha desfile, eu ia para o fim da fila, pois a minha calça destoava da calça dos outros. O meu sapato era diferente do sapato dos outros. A minha consciência polÃtica veio daÃ, de enxergar essas contradições já lá dentro do bairro de Canudos. Ainda tinha uma outra questão. O meu pai não era corrupto. E os oficiais da polÃcia, grande parte deles eram corruptos! Alguns que não eram corruptos eram os melhores amigos do papai, tinham um padrão de vida lá em baixo. E eu não entendia porque o papai era tenente e tinha um tenente mais rico do que o papai, e nem porque tinha um capitão mais rico do que o papai. E o papai me explicava, mas o papai não podia dizer: “olha esse filho da puta é ladrão”, porque nós irmos aos aniversários na casa dos outros e eles iam aos lá de casa, e ai, eu moleque ia bater com as lÃnguas nos dentes e ia ser uma merda isso. Minha consciência foi se formando assim, e ai a ditadura militar foi o estopim. A ditadura militar foi uma contradição interna, pois a partir dela, o meu pai que era perseguido pelo Barata teve que se exilar no interior, passando cinco anos como delegado de polÃcia de Igarapé-Açu. Ele foi delegado de polÃcia de outras localidades também no interior

