Vivemos em nossa cidade uma crise de violência urbana sem precedentes. Essa mesma crise está gerando uma outra crise: de ordem institucional no atual governo do Estado do Pará, órgão responsável pelo combate direto ao problema.
Diferentemente do que afirmou o ex-governador, do estado do Pará, Almir Gabriel, não há uma “sensação de insegurança”, verdadeiramente há violência em todas as suas faces de ordem generalizada em nossa querida Belém, que, diga-se de passagem,
completou 393 anos sem ter muito que comemorar. Não há “sensação de insegurança”, há uma violência de ordem psicológica que nós assola e que seus efeitos poderão ser sentidos não agora, mais depois, e de forma perversa.
A violência que atinge a sociedade belenense não é nenhuma novidade, ela sempre esteve a combalir suas vítimas. O estardalhaço agora se faz, pelo fato, de que a violência – que antes era mais latente em classes sociais desfavorecidas – adentrou a elite de nossa cidade. Está vitimando pessoas que até então estavam “blindadas” a ela. A morte do médico, Salvador e de Marcelo, procurador da Prefeitura de Belém, foram o estopim para deflagrar um movimento contra a onda de violência que verdadeiramente assola Belém.
A questão central é: Por que só agora com a morte de pessoas que são notórias em nossa cidade é que a mídia e o governo realmente resolveram entrar de forma mais incisiva na questão? Será que as diversas mortes que ocorrem aos cidadãos comuns nas periferias “iraquianas” de nossa Belém não são igualmente importantes? Para responder essas questões é que não abracei diretamente a movimentação contra a violência, dirigida por nossa elite paraense que agora se sente acuada, perplexa com a ação da violência entre seus pares. Seus carros – muitos destes blindados – já não dão conta de deter à violência, assim como seus condomínios fechados já não são páreos para a crise que está nas ruas e em todos os lugares. A “bolha” na qual a elite se escondia estourou!
A questão da violência é na verdade um fim. Não é o começo e nem o meio do processo, suas causas se dão por inúmeras falências, entre as principais estão: a família, a deficiência do Estado – este como ente responsável em garantir a ordem – e, um sistema de produção capitalista que já não garante minimamente condições de sobrevivência para todos, o que potencializa a produção das diversas violências.
Podemos explicar a violência em nossa cidade por diversas teses. A questão econômica é uma delas. Belém é uma capital que depende quase que exclusivamente do setor terciário, ou seja, o setor de serviços é responsável por uma porcentagem considerável de nossa economia. Não temos um pólo industrial - se temos, [já que alguns podem não concordar], ele só serve para receber incentivos do governo não gerando uma quantidade considerável de empregos - que consiga contrabalancear essa dependência. Na questão, o que é pior, é que nosso setor de serviços não garante abarcar toda mão-de-obra disponível. Nosso setor informal já chega perto dos 40%, o que por si só é preocupante. Essa informalidade toda é um atrativo para a delinqüência.
Uma outra questão que pode explicar os altos índices de violência na capital paraense é a deficiência gerencial por parte daquele que tem a responsabilidade de garantir a ordem, ou seja, o Estado. A deficiência é de gestão na área de segurança pública. Por mais de 12 anos o governo estadual não enfrentou a situação de frente. Os anos foram passando e o que se observou foi um sucateamento na área, além da deficiência de pessoal para prestar um serviço de mínima qualidade para a população. O que vemos agora é o resultado de mais de uma década de descaso com a segurança pública de nosso Estado.
Particularmente em Belém, que padece da falta de policias para combater o crime, os programas sociais que eram operacionalizados por outras administrações municipais na capital foram abandonados o que direcionou esses jovens – já em risco social eminente – para a delinqüência. Programas, tais como: Escola Circo e Sementes do Amanhã, que eram responsáveis em tirar milhares de crianças das ruas e da-lhes outro sentido para suas vidas. Esses mesmos menores é que estão nas ruas assaltando, roubando e matando. Não só médicos e procuradores, mas também pessoas assim como eu e você, cidadãos comuns!